Literatura Young Adult é literatura de verdade?

by - 8:26 PM

Na última semana o nicho literário da internet se viu frente a diversas polêmicas envolvendo o que seria ou não "literatura de verdade". Tudo começou com um e-mail TAG Experiências Literárias divulgando suas duas modalidades de caixa de assinaturas - uma chamada "Inéditos" e outra "Curadoria". Acontece que tudo ficou muito nebuloso sobre o que a marca realmente estava querendo transmitir com aquele e-mail.

O infográfico anexado basicamente reforçava diversos estereótipos que eu, ingênua, acreditava que já não existiam em 2018: a ideia de que livros best-sellers são fracos, que alta literatura é difícil e, talvez a que mais tenha me impactado e gerado discussões e até o posicionamento de outros booktubers e editoras, a ideia de que literatura jovem não exige um pensar mais profundo, não debate temas importantes e seria puro entretenimento. 



Enfim, sobre a polêmica com a TAG, fiz esse vídeo acima destrinchando todo o e-mail e porquê cada ponto dele foi problemático, com base na minha opinião e nas discussões e debates que tivemos principalmente no twitter sobre isso. Importante ressaltar mais uma vez que tudo o que disse foi com base na minha visão como profissional de comunicação e leitora, e não especialista em literatura. Por isso, deixei na descrição do vídeo algumas threads e textos que considero importantes sobre pessoas que realmente entendem desse lado.

A questão é que dentre todos os debates que surgiram por conta desse e-mail, o mais forte diz respeito ao fato da literatura Young Adult ser ou não considerada... literatura de verdade. Tivemos até tweets de estudantes de letras citando o que torna um texto literatura e apontando que esse tipo de livro não tinha esses pontos básicos. Quando, na verdade, o autor do tweet nem havia se dado ao trabalho de ler um dos livros para fazer essa constatação.

Não é segredo pra ninguém que meu tipo favorito de livro é o que tem personagens jovens e seus dilemas. Não é a toa que John Green é meu autor favorito. Por isso, entrei na discussão sim e defendi com unhas e dentes, até porque, se analisarmos os últimos livros jovens lançados, todos tratam de temáticas importantíssimas: homofobia, racismo, transtornos mentais, gordofobia, machismo, abuso sexual. E receber um título de alta literatura ou não, para mim, o mais importante é esse tipo de discussão, e principalmente no universo do jovem. Não dá pra confiar que esses assuntos serão discutidos nas escolas ou no ambiente familiar, e unir entretenimento com responsabilidade social é muito importante, talvez até mais do que obrigar um adolescente a ler Dom Casmurro e ganhar ranço dos clássicos nacionais.



Ontem (19/04) algumas editoras aderiram à hashtag #YAéLiteratura. Muita gente compartilhando histórias, conhecimento e, principalmente, indicando livros e autores. Contribuí com algumas indicações, mas principalmente com a minha história.

Já escrevi diversas vezes aqui sobre minha relação com os livros do John Green, mas nunca fui tão direta quando no meu tweet de ontem. Postei essa foto, dessa última página de Tartarugas até lá embaixo e contei sobre o momento em que li esse livro. Foram poucas palavras. "No ano passado eu tinha certeza que acabaria me matando. A última página de um livro do John Green me salvou". E foi essa foto. E ela me salvou mesmo

Assim como conheço outras dezenas de pessoas que têm histórias fortes ligadas à literatura jovem, assim como elas são o meu refúgio e o de tantos outros leitores. É no mínimo desrespeitoso tratar esses livros como menos que outros. Eles podem não ter uma escrita rebuscada, metáforas mil ou metalinguagem. Mas o papel da literatura é realmente só ser um monte de palavras escritas de uma forma maneira? Eu acredito que não.

Eu acredito que o papel da literatura também pode ser entreter, gerar debate, defender uma causa, apontar um problema social, ajudar na construção do caráter e da personalidade, abrir os nossos olhos para mundos que não conhecemos - e aqui, eu não estou falando sobre o mundo de J. K. Rowling ou Tolkien. Eu falo sobre mundos que estão dentro da nossa própria cidade, sobre a periferia e a violência policial contra negros, como no caso de O ódio que você semeia. Das instituições psiquiátricas pelo olhar de Sylvia Plath em A Redoma de Vidro (que, sim, pode ser considerado literatura YA) e Ned Vizzini em Uma história meio que engraçada. O mundo de quem vive violência doméstica e relacionamentos abusivos em É assim que acaba.

Literatura jovem é literatura e é importante. Talvez seja a hora de o mundo se acostumar com isso.

You May Also Like

3 comentários

  1. Gostei muito tanto do seu texto como do seu vídeo. Eu fiquei bem chateada com esse lance da Tag. Como você disse, todo e qualquer livro pode fazer o leitor pensar. Na verdade é missão do livro fazer a gente pensar sobre algo, independente de pra qual público ela é destinada. Se não faz pensar, a falha é do autor e não do leitor.

    Vidas em Preto e Branco

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Exatamente, Lary! Sério, eu consigo tirar algum pensamento de qualquer livro, nem que seja "nossa, que história péssima". Mas enfim, né? Parece que eles se retrataram e basicamente o pensamento deles é esse, infelizmente,

      Excluir
  2. Oi Ana.
    Adorei o seu desabafo e eu concordo plenamente. Os livros estão aqui para nos fazer pensar, para vermos coisas sob uma outra perspectiva e para nos divertir, também. São nossos amigos. Novos ou antigos. E não importa a quem é destinado o livro. Gosto de John Green e de Victor Hugo. Adorei "A Menina Mais Fria de Coldtowwn" e amo "Drácula". E daí? Parece que o único ranço está com esses ditos especialistas que não avançam as páginas da história.
    Amei!!!
    Beijos mil! :-)

    Perdida Na Lua Cheia

    ResponderExcluir

Obrigada pela visita e comentário!
Comentários com mera intenção de spam ou divulgação serão ignorados.

Todas as visitas são retribuídas (muitas vezes retribuo seguindo o blog em questão, para assim poder comentar uma publicação que seja interessante e acrescentar ao invés de só retribuir).

Beijos ^-^