[Resenha] Os Dois Mundos de Astrid Jones - A. S. King

10:00 AM / Ana Letícia Lima

É bom amar uma coisa e não esperar nada em troca. É bom não haver discussão nem pressão alguma, ou qualquer boato de qualquer baboseira. É amor sem amarras. É o ideal.


É isso: finalmente consegui ler Os dois mundos de Astrid Jones, um livro que estava na minha wishlist há, pelo menos, dois anos. Digo que valeu a espera, que livro meus caros! Com uma escrita poética e narrativa em primeira pessoa, conhecemos uma adolescente de 17 anos que está começando  descobrir o mundo a sua volta, trabalhando em seu primeiro emprego e tomando lições sobre filosofia na escola que a inquietam pelo restante do dia. 

Com tanta coisa acontecendo é inevitável que a cabeça de Astrid vire uma bagunça, porém, não há válvula de escape no mundo real: com pais pouco interessados na sua vida, ela resolve o conflito de uma maneira muito simples, deitando no quintal de sua casa e contando sua vida aos passageiros dos aviões que avista no céu. Cada passageiro tem sua própria história, que pode ou não ser real, mas de fato, agora eles fazem parte da vida real de Astrid.



O mais interessante desse livro é que cada uma das aflições de Astrid com certeza já passou pela cabeça da maioria dos adolescentes, pelo menos os da minha geração. Se hoje, aos 23 anos, não tenho certeza de quase nada na minha vida, imagina a Ana de 17? E o livro mostra isso de uma maneira real. Sem querer fazer comparações, mas citando o que sempre ouço sobre os personagens do John Green, que muitas vezes são distantes da realidade, os personagens em Astrid Jones são reais até demais.

E as situações, incrivelmente, também. Tudo é muito real. Tudo é muito identificável, apesar da excentricidade da protagonista. O medo de mostrar seu real interior para uma cidadezinha preconceituosa e interessada na vida alheia não é um medo único, é um medo que, no fim das contas, acabamos descobrindo que toma conta da sua melhor amiga, do namorado da sua melhor amiga e daquela garota super bacana que trabalha contigo limpando camarões.

Sem querer dar spoilers (mas talvez já dando), por fim, o livro me ganhou ao mostrar representatividade. Ao mostrar que, às vezes, não precisamos de rótulos pra apenas sentir as coisas, não precisamos gostar de homens ou de mulheres e sim de pessoas. No fim das contas, tudo é só uma questão do corpo com o qual viemos ao mundo, porque alma, caráter, empatia e todas as qualidades e defeitos que pudermos listar são construções sociais.

Infos:
Título original: Ask the Passengers
Autora: KING, A.S.
Editora: Gutemberg
ISBN: 9788582352694
286 páginas

Para comprar: Amazon
(comprando através dos links do blog, a blogueira que vos fala ganha um dinheirinho pra investir em mais resenhas pra cá)

Wishlist de lançamentos #6

3:08 PM / Ana Letícia Lima

Começar 2018 com uma wishlist recheaaaaada de livros e com as editoras renovando o catálogo é tudo de bom, né? Dá até um quentinho no coração. Porém, começar recém-formada e sem emprego pra me esbaldar nas livrarias é péssimo. Por isso eu faço essa lista: pra vocês que, diferente de mim, estão cheios do dinheiro e dispostos a gastar em livros! Hahahah

Brincadeiras à parte, a wishlist dessa vez tá cheia de amor e tem até livro-reportagem, pra quem nunca se aventurou pelo gênero e, quem sabe, se interessa e dá uma chance dessa vez. Aproveitem!

1. Me Chame Pelo Seu Nome - André Aciman (Intrínseca)



A casa onde Elio passa os verões é um verdadeiro paraíso na costa italiana, parada certa de amigos, vizinhos, artistas e intelectuais de todos os lugares. Filho de um importante professor universitário, o jovem está bastante acostumado à rotina de, a cada verão, hospedar por seis semanas na villa da família um novo escritor que, em troca da boa acolhida, ajuda seu pai com correspondências e papeladas. Uma cobiçada residência literária que já atraiu muitos nomes, mas nenhum deles como Oliver. Com rara sensibilidade, André Aciman constrói uma viva e sincera elegia à paixão, em um romance no qual se reconhecem as mais delicadas e brutais emoções da juventude. Uma narrativa magnética, inquieta e profundamente tocante.

O livro que deu origem ao filme aclamado nos mais diversos festivais de cinema pelo mundo e grande aposta para o Oscar 2018 é com certeza a leitura da vez dos book influencers. A cada nova resenha que vejo sobre ele tenho certeza de que preciso conhecer logo essa história! Tem tudo pra ser aquele livro que me arranca lágrimas e que fica cheinho de flags de quotes lindos. Para comprar: Amazon.


2. Todo Dia a Mesma Noite - Daniela Arbex (Intrínseca)

Reportagem definitiva sobre a tragédia que abateu a cidade de Santa Maria em 2013 relembra e homenageia os 242 mortos no incêndio da Boate Kiss, Daniela Arbex reafirma seu lugar como uma das jornalistas mais relevantes do país, veterana em reportagens de fôlego - premiada por duas vezes com o prêmio Jabuti - ao reconstituir de maneira sensível e inédita os eventos da madrugada de 27 de janeiro de 2013, quando a cidade de Santa Maria perdeu de uma só vez 242 vidas.

Conheci o trabalho da Daniela pelo livro Holocausto Brasileiro, uma das leituras obrigatórias no meu último ano de faculdade. Desde então, passei a admirar o trabalho da jornalista e desejar todas as suas obras (o que ainda não aconteceu, infelizmente rs). Porém, o assunto da Boate Kiss sempre me interessou bastante, então com certeza a obra entrou na lista de desejados! Para comprar: Amazon | Submarino.

3. Os Diários de Sylvia Plath - Karen V. Kunil (Globo Livros)

Nesta nova edição, a Biblioteca Azul traz os diários de uma das poetas mais aclamadas do século XX, traduzidos dos manuscritos originais do Smith College, além de um caderno de fotos com imagens de vários períodos da vida da autora. Sylvia Plath começou a escrever memórias e diários aos onze anos, o que fez até sua morte, aos trinta. A narrativa central desta edição abrange oito diários de sua vida adulta, de 1950 a 1962, dispostos separadamente, em ordem cronológica, além de quinze fragmentos de diários e cadernos de anotações, escritos entre 1951 e 1962, organizados também cronologicamente como apêndices.

Esperei muuuuuito por uma nova edição de Os Diários de Sylvia Plath, não só por ser fã e admiradora da vida e obra da autora, mas também por A Redoma de Vidro (resenhado aqui) ser um dos meus livros favoritos da vida. A nova edição veio, mas infelizmente o preço ainda tá levemente salgado... Só me resta esperar as black nights da vida pra adquirir o meu! Para comprar: Amazon.

4. O que o sol faz com as flores - Rupi Kaur (Planeta)

Da mesma autora de outros jeitos de usar a boca, best-seller com mais de 100 mil exemplares vendidos no Brasil, o que o sol faz com as flores é uma coletânea de poemas arrebatadores sobre crescimento e cura. ancestralidade e honrar as raízes. expatriação e o amadurecimento até encontrar um lar dentro de você. Organizado em cinco capítulos e ilustrado por Rupi Kaur, o livro percorre uma extraordinária jornada dividida em murchar, cair, enraizar, crescer, florescer. uma celebração do amor em todas as suas formas.

Já reli outros jeitos de usar a boca no mínimo umas três vezes, e em cada uma delas me identificava com um poema diferente, de maneiras diferentes, sentindo de formas distintas. Como citei na resenha aqui no blog, Rupi Kaur consegue transmitir em palavras alguns sentimentos e sensações que toda mulher já teve o prazer ou desprazer de viver. Obviamente esse lançamento da Planeta entrou pra minha wishlist e sinto que dessa vez os poemas serão mais intensos. Para comprar: Amazon [em pré-venda]


5. É Assim Que Acaba - Colleen Hoover (Galera Record)

Lily nem sempre teve uma vida fácil, mas isso nunca a impediu de trabalhar arduamente para conquistar a vida tão sonhada. Ela percorreu um longo caminho desde a infância, em uma cidadezinha no Maine: se formou em marketing, mudou para Boston e abriu a própria loja. Então, quando se sente atraída por um lindo neurocirurgião chamado Ryle Kincaid, tudo parece perfeito demais para ser verdade. Ryle é confiante, teimoso, talvez até um pouco arrogante. Ele também é sensível, brilhante e se sente atraído por Lily. Porém, sua grande aversão a relacionamentos é perturbadora. Um romance sobre a força necessária para fazer as escolhas corretas nas situações mais difíceis.

Esse é, definitivamente, o meu lançamento mais esperado dos últimos anos! Quem leu em inglês decretou: é a melhor história da Colleen Hoover. E como vocês já devem saber, sou fã de carteirinha da autora, então mal posso esperar para devorar esse livro como fiz com todos os outros. O difícil é segurar as expectativas pra não atrapalhar a leitura. Para comprar: Amazon | Submarino. [em pré-venda]


Lá no meu Skoob tem mais outros lançamentos que desejo muito! É só entrar na minha estante na seção "desejados". Os primeiros a aparecerem são os lançamentos. Deixo como indicação Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente e Dias de Despedida, que apesar de serem lançamentos de dezembro estão sendo muito bem indicados e estão na minha lista!

[Livro x Filme] Extraordinário - R. J. Palacio

2:19 PM / Ana Letícia Lima

Pode conter spoilers



Extraordinário é um livro que, desde o seu lançamento, entrou pra lista de favoritos de quase todo leitor que teve contato com a história de Auggie, o garoto que nasceu com uma síndrome rara que afeta principalmente a formação do seu rosto. A história é cheia de personagens cativantes, momentos emocionantes e também engraçados, e tem toda uma atmosfera muito especial. Não é a toa que, quando a adaptação para os cinemas foi divulgada, o alvoroço pelo livro se tornou ainda maior.

Já resenhei o livro aqui no blog e falei, inclusive, sobre um dos livros paralelos à história, lançado também pela Intrínseca - o 365 Dias Extraordinários, com um preceito para cada dia do ano, inspirado nas frases motivacionais usadas pelo personagem Sr. Browne em Extraordinário (você pode conferir a resenha aqui). Eu, portanto, fui mais uma das pessoas que ansiou por esse filme, e posso dizer com toda a certeza que minhas expectativas foram superadas.

Tratar de um assunto tão delicado sem partir para o sensacionalismo é uma tarefa árdua. É claro que, como diretor, receber um feedback emocionado do público deve ser incrível. Mas Extraordinário não apela para as lágrimas ou para o drama - pelo contrário: apesar das lagriminhas inevitáveis que percorreram meu rosto ao final do filme, o que tomou mesmo conta da sala de cinema foram as risadas em diversos momentos, como quando a imaginação de Auggie mistura a história escrita por R. J. Palacio com seres de outras galáxias, como os de Star Wars.

Apesar de ser fã incondicional de Jacob Tramblay e admirar todo o trabalho de maquiagem e interpretação realizados com o ator mirim, para mim, quem roubou a cena foi a personagem Via Pullman, irmã de Auggie e interpretada por Izabela Vidovic. Para mim, a maneira como os holofotes foram direcionados à ela em vários momentos foi algo muito bem pensado e tirou todo o peso de retratar apenas a visão do garoto. Quem leu o livro sabe que a divisão dos capítulos é feita pelo ponto de vista das pessoas ao redor de Auggie. No filme, porém, nem todos têm sua narrativa, mas a de Via com certeza é a mais impactante pela forma como mostra que, apesar de amar incondicionalmente seu irmão e sua família, muitas vezes ser a irmã mais velha de uma criança que exige cuidados especiais pode ser frustrante. 

Impossível, também, falar sobre esse filme sem citar o elenco de peso: Julia Roberts, Owen Wilson, o próprio Jacob Tremblay e a minha maior surpresa, que me fez ficar ainda mais empolgada, Mandy Patinkin e Daveed Diggs, ambos atores ligados ao teatro musical. Diggs, inclusive, interpretando Lafayette no aclamado, lindo, incrível, maravilhoso, Hamilton. A direção é de Stephen Chbosky, autor de As Vantagens de ser Invisível, portanto, eu não esperava nada menos do que um filme sensível e à altura do livro.

Falando em termos comparativos, obviamente muita coisa foi alterada ou excluída para que pudesse se encaixar no formato audiovisual. Acredito que como leitores assíduos já deveríamos estar acostumados com esse tipo de mudança, afinal, trata-se de uma adaptação. No caso de Extraordinário muitas coisas foram bastante fiéis, até mesmo a tipografia utilizada no livro e as ilustrações. Outras, porém, foram modificadas, como a narrativa dividida entre diversos personagens que convivem com Auggie. Para mim, a única perda foi a maneira como o personagem do Sr. Browne recebeu um destaque mínimo perto das contribuições que dava ao livro. Se a escolha fosse minha, guiaria a história toda através dos seus preceitos. Mas, bem... Não fui eu a diretora hehe.


Trailer oficial legendado

[Review] The end of the f***ing world - 1ª temporada

4:46 PM / Ana Letícia Lima


A primeira coisa que vocês precisam saber antes de ler esse review não é sobre a série, e sim sobre mim: eu talvez tenha um pouco de ranço que coisas hypadas demais. Acontece sempre que uma série nova da Netflix é lançada e todo mundo em todas as redes sociais está falando sobre ela e como sobre ela é incrível. Isso me fez não assistir a praticamente todos os seriados lançados no serviço de streaming - Dark, Stranger Things, Sense8, Black Mirror, dentre outras tantas. Sempre fico por fora dos assuntos nas rodinhas de amigos, mas minha consciência segue tranquila.

Quando começaram a pipocar os primeiros posts sobre The end of the f***ing world o ranço começou a crescer em mim. Tive preguiça. Muita preguiça. E muita certeza de que seria mais uma das séries da Netflix que eu apenas veria os textões sobre no Facebook e seguiria minha vida como se nada tivesse acontecido. Porém, eu fui obrigada - obrigada mesmo, do tipo ter um celular enfiado no meu campo de visão - a assistir ao trailer, que me ganhou em poucos minutos.



A história principal da série é sobre James e Alyssa, um casal adolescente um tanto quanto... problemático. Ele, que tem certeza sofrer de psicopatia, encontra nela a vítima perfeita para seu primeiro assassinato. Sem saber quando irá acontecer, mas sempre carregando a faca com a qual cometerá o crime, James se aproxima de Alyssa, que sugere que eles metam o famoso loko e fujam por aí com o carro roubado do pai do garoto.

A partir daí, a trama envolve invasão de propriedades, assaltos, roubos, assassinatos e um milhão de coisas que, certamente, adolescentes comuns não planejariam. A cada episódio - que dura em média 20 minutos - algum plot te fará pensar o quão fodidos os personagens estão. E, de alguma forma, eles também sempre conseguem se livrar da enrascada. Posso dizer que a imprevisibilidade da série foi um dos pontos que me cativou. Quem assiste nunca faz ideia do que pode acontecer no próximo segundo, e isso se deve em grande parte à imprevisibilidade dos próprios personagens.


Alyssa é explosiva, niilista, mas ao mesmo tempo sentimental e emotiva, enquanto James realmente demonstra a maioria das características de um psicopata, como falta de empatia, pensamentos frenéticos sobre morte e ausência de certos sentimentos. Porém, com o passar dos episódios, a mudança pela qual os personagens passam é evidente e incrível. Poucas são as séries com a capacidade de mostrar, em tão pouco tempo, esse tipo de evolução mesmo durante muitas temporadas, e The end of the f***ing world conseguiu isso em apenas oito episódios. Mais um ponto que me cativou.

Para além da história com plots inimagináveis, também há toda a questão estética: a série é linda. A trilha sonora, que em muitos momentos me lembrou a do filme Juno (uma das minhas trilhas favoritas da vida); a fotografia impecável, que explora os mais diversos planos, além de utilizar sombra e luz de uma maneira incrível e uma paleta de cores que mexeu com meu coraçãozinho. Nesse quesito, me fez lembrar muito do filme Submarine, e depois acabei descobrindo que muitas outras pessoas também fizeram essa associação e não só pela fotografia da série, mas pela própria história.



Desde o lançamento, algumas problematizações vêm sendo feitas a respeito do enredo - óbvio, tudo é problematizado hoje em dia, e realmente deve. Discussões a respeito da romantização de transtornos mentais e até mesmo da psicopatia, sobre a posição de Alyssa como uma possível manic pixie dream girl e o incentivo a certas irresponsabilidades cometidas pelos protagonistas. Minha opinião sobre tudo isso é bastante simples: 99% da mídia que consumimos é problemática, porém, na maioria das vezes, o suposto incentivo não vem somente de uma série ou livro, mas de todo um contexto social em torno do adolescente que o consome.

Em outras palavras, não acredito que uma série seja capaz de incitar um adolescente a roubar o carro do pai e fugir por aí com uma garota. A mesma discussão foi levantada a respeito de 13 Reasons Why e nunca se chegou a um consenso definitivo sobre os danos que as cenas de suicídio podem causar. A realidade é que adolescentes romantizam coisas que não deveriam ser romantizadas desde sempre e por N fatores mais profundos do que uma simples série de TV. E concluindo: não acho que Alyssa seja uma manic pixie dream girl por inúmeros motivos que posso dedicar a um único post, mas em geral, garotas com transtornos mentais não são fetichizadas pelos caras, e sim, ignoradas, abandonadas e estereotipadas como malucas.

Por fim, fica o meu apelo: assistam essa série.