6 de maio de 2016

[Resenha] Um Vida no Escuro - Anna Lyndsey

O meu corpo aprendeu a ficar sentado no quarto, em silêncio. Aprendeu a não gritar, não chorar, não se encolher. Mas meu espírito rodopia como o vento, avoluma-se como a chuva. A selvageria externa fala à selvageria interna.

Anna Lyndsey é o pseudônimo de uma mulher inglesa que descobriu uma rara sensibilidade à luz que a impedia até mesmo de realizar as tarefas mais simples, como uma caminhada ou a leitura de um livro. Uma Vida no Escuro é uma história real, um relato agoniante de uma vida sem qualquer vestígio de luz.

Tudo começou com um pequeno desconforto causado pela luz da tela do computador onde trabalhava: uma leve ardência no rosto, que com o passar dos dias se transformou em uma dor insuportável, uma queimação que como a própria autora define, mais se parecia com um maçarico em contado com a pele.

Anna* se afastou do trabalho na esperança de que a luz da tela do computador fosse o problema, mas com o passar dos dias o seu caso foi se agravando. Toda e qualquer luz que entrava em contato com o seu rosto (inclusive a luz natural do sol) era um gatilho para fortes dores que a fizeram utilizar diariamente grandes chapéus e máscaras protetoras que causavam espanto em locais públicos.

A busca por médicos que explicassem sua condição começou: dermatologistas, alergistas, médicos especializados em casos raros de fotossensibilidade. Nem mesmo eles conseguiam entender porque o corpo dela, de repente, começou a reagir de forma tão radical à luz. Em uma dessas consultas, um médico acabou descobrindo seu quadro raro de sensibilidade e encontrou uma pomada capaz de reduzir os sintomas.

Aos poucos o medicamento realmente fez efeito: seu rosto quase não queimava e ela já conseguia dar pequenos passeios ao pôr do sol. Até mesmo planos para seu casamento foram feitos. Porém, o destino tinha outros planos reservados para Anna*: ao passo que sua face era curada, o restante do seu corpo reagia. Braços, pernas, tronco, pescoço... Nenhum desses locais havia sido afetado pela sensibilidade até então, mas agora se tornavam cada dia mais sensíveis ao contato com a luz, inchando, avermelhando, até o ponto crucial em que queimavam de forma semelhante ao rosto.

É nesse momento que o mundo da protagonista cai. A mínima exposição à luz se torna insuportável, e mesmo com roupas sua pele ardia e se irritava. Muitas foram as medidas tomadas: a utilização de roupas protetoras, de camadas e mais camadas de tecido, mas nada disso parecia funcionar. Foi então que a decisão mais drástica e amedrontadora de sua vida foi tomada. Anna decidiu se isolar na escuridão.

Passou a viver isolada em um dos quartos da casa de seu noivo, Pete, com total vedação nas janelas e porta, para que nem o mínimo feixe de luz conseguisse penetrar por sua fortaleza. Se expunha muito rapidamente somente para necessidades físicas, como cozinhar. Ouvia audio-livros para passar o tempo, criava desafios e brincadeiras que poderiam ser feitos no escuro, tudo devidamente registrado no livro.



Fui muito surpreendida por essa história, porque a todo momento eu me esquecia que se tratava de uma história real, e não uma ficção. A aflição da autora consegue ser muito bem passada ao leitor, e por diversas vezes me imaginei trancada em um quarto sem acesso à luz, vivendo de uma forma que eu não conseguiria enxergar nem a mim mesma.

Além da aflição de viver na escuridão total, Anna enfrenta outros dilemas, como o afastamento dos seus amigos e família e o medo de perder Pete, seu noivo. Quando Anna se dá conta de que terá que viver completamente isolada na escuridão ela toma a decisão de pedir a Pete para que possa viver em sua casa. E a todo momento podemos viver com ela o sofrimento de se imaginar sendo um fardo na vida daqueles que ama.

Até a hipótese de suicídio é levantada por ela, e esse foi um dos momentos que mais me marcou no livro. Eu passei várias páginas me colocando no lugar dela e imaginando que já teria tirado minha própria vida nessa situação, e a pergunta que eu mais me fazia era: como a autora não pensou nisso? Mas sim, ela pensou, esse só não é o foco principal do livro.

Podemos imaginar que ao final Anna se recupera da sua doença, vive feliz e nos deixa uma mensagem de superação. Se tratando de uma biografia e não de uma ficção, essa hipótese é bastante pequena. Mas o livro me fez refletir muito como uma história não precisa terminar com uma mensagem escrita palavra-por-palavra pra me fazer senti-la. O livro por si só pode ser essa mensagem, e é isso que Uma Vida no Escuro provou pra mim.

Infos:
Título original: Girl in the dark
Autora: LYNDSEY, Anna
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788580578829
247 páginas
Livro cedido para resenha pela editora.
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