[Resenha] Perdão, Leonard Peacock - Matthew Quick

1:27 PM / Ana Letícia Lima

Eu sei que você só quer que tudo acabe, que não consegue ver nada de bom em seu futuro, que o mundo parece escuro e terrível, e talvez você tenha razão, o mundo pode ser, definitivamente, um lugar apavorante. Eu sei que você mal está suportando. Mas, por favor, aguente mais um pouco.


É aniversário de 18 anos de Leonard Peacock. Em sua mochila, o garoto leva 3 presentes embrulhados em papel cor-de-rosa e uma pistola P-38 nazista, herdada de seu avô. Hoje, Leonard vai matar seu melhor amigo e, logo depois, se suicidar. 

Não é difícil entender por quê Leonard tem tanta raiva da sua vida: sua mãe foi morar em Nova York e o deixou para trás, sozinho, tendo como companhia apenas seu vizinho idoso viciado em filmes antigos. Na escola, ele é tido como uma das pessoas mais esquisitas e até mesmo seu (ex) melhor amigo pratica bullying com ele. O único que parece lhe entender é Herr Silverman, seu professor de história e, mais especificamente, sobre o Holocausto nazista.

Silverman percebeu, em algum momento, que Leonard precisava de ajuda e com isso lhe propôs um desafio: escrever cartas do futuro. São como cartas de pessoas que Leonard ainda irá conhecer no futuro, lhe contando como a vida é, quem elas são e dando vários motivos para que ele continuasse firme e buscando o futuro.

O livro é dividido entre diversos capítulos do presente - com cada passo de Leonard num período de 24 horas, cada nova página do seu plano de suicídio/homicídio - e outros pequenos capítulos com as cartas do futuro dele, enviadas por sua futura família. No começo essa alternância cria uma certa confusão, que acaba sendo solucionada com a explicações sobre o quê seriam essas cartas mais adiante.



A construção dos personagens de Leonard e Herr Silverman é incrível: a cada nova página, a cada novo capítulo, o autor nos entrega um pouco dos motivos pelos quais o protagonista é tão perturbado. Não são só suas peculiaridades (como o fato de, esporadicamente, vestir um terno e se fingir de adulto ou então seguir pessoas infelizes que encontra no metrô), mas Matthew Quick nos mostra como cada pequeno detalhe da vida do garoto o tornou um adolescente que tem a coragem de sair de casa com uma pistola com o objetivo de matar o seu melhor amigo.

O professor também se mostra um personagem bastante importante para a construção da trama, principalmente por ser um dos únicos que realmente se move e faz algo por Leonard. Diversas vezes durante a história pessoas próximas a ele percebem que algo estranho e grave está prestes a acontecer, mas ninguém parece dar muita importância a isso. Todos seguem suas vidas como se Leonard não estivesse prestes a desabar diante de seus olhos. Silverman não assiste a isso de braços cruzados e realmente acaba se tornando peça chave para diversos acontecimentos do livro.

Preciso ressaltar que apesar de ter me apaixonado pelos personagens, a história em si não teve o mesmo efeito sobre mim. Com personagens tão incríveis e acontecimentos tão turbulentos, acredito que a trama merecia uma construção melhor. Muitos acontecimentos acabam meramente jogados ao leitor, deixando uma sensação de que algo não foi concluído. Já li muitos livros com finais inconclusivos (e defendo esse tipo de término), mas dessa vez sinto que o autor realmente não teve um cuidado em entregar um final com algum tipo de reflexão ou sentido. Me senti lendo o primeiro livro de uma série que ainda tem muitos acontecimentos reservados para os próximos livros.

Apesar disso, também acabei em contradição quando notei o quanto a narrativa se confunde com o próprio estado mental de Leonard - já que é o próprio protagonista que o narra. É bastante possível que o final inexplicado e os acontecimentos sem sentido sejam apenas um reflexo de como a mente de Leonard funciona e de como tudo está muito confuso não só para nós, mas para ele também. Refleti muito sobre esses dois pontos e, por fim, não consegui chegar a nenhuma conclusão plausível. Com isso, só consigo pensar que estava errada. Matthew Quick me entregou, sim, um final com uma reflexão. Ela só é diferente para cada pessoa que tem contato com o livro.

Infos:
Título original: Forgive me, Leonard Peacock
Autor: QUICK, Matthew
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788580573954
223 páginas

Livro cedido para resenha pela editora
Para comprar: Submarino | Americanas | Amazon
(comprando através dos links do blog, a blogueira que vos fala ganha um dinheirinho pra investir em mais resenhas pra cá)

O amor nos tempos do Tumblr

4:03 PM / Ana Letícia Lima

De 25 a 29 de abril a editora Intrínseca e seus blogs parceiros prepararam uma semana incrível e especial sobre o livro Simon vs. a Agenda Homo Sapiens. Fiquem de olho nas redes sociais da editora pra não perder nada!



Não é segredo pra ninguém o quanto eu me empolguei com a leitura de Simon vs. a Agenda Homo Sapiens. Se você ainda não conhece a história é só clicar aqui e dar uma lidinha na resenha que escrevi!

O romance principal do livro gira em torno de e-mails trocados entre Simon e Blue. Blue é um codinome de um garoto que Simon só conhece virtualmente, não sabe nada sobre sua aparência ou sua vida fora da internet. Os dois se conheceram através de uma postagem no tumblr da escola, onde Blue assumia ser gay e desabafava sobre como ele se sentia sozinho e deslocado com isso. Ao ler essa postagem, Simon se identifica de tal forma que não pensa duas vezes: cria um e-mail falso e passa a se corresponder com ele.

Nesses e-mails os garotos falam sobre os mais diversos assuntos, como suas aflições adolescentes, os conflitos com os pais, seus gostos pessoais e também rola um romancinho de tirar suspiros até dos corações mais gelados. Com o passar do tempo, Simon acaba se abrindo mais sobre ele, conta sobre suas aulas, seus amigos, suas bandas favoritas. Blue é mais reservado, mas deixa sempre escapar algumas informações sobre ele, o que só deixa Simon ainda mais curioso para descobrir sua real identidade.

Aos poucos fica impossível ao leitor não ficar ansioso e com muitas expectativas sobre quem seria Blue. Rola até uma certa identificação - mesmo que você não se corresponda virtualmente com alguém que não sabe exatamente quem é - quem nunca teve aquele crush virtual, que poderia até mesmo ser de outra cidade muito distante da sua, com quem trocava juras de amor nas redes sociais?!

É incrível como, nesse caso, a aparência de Blue não faz a menor diferença no surgimento do amor de Simon por ele. Obviamente o protagonista se sente muito curioso com relação a quem ele seria e até mesmo cria diversas teorias (que acabam todas erradas), mas o mais importante torna sua beleza física irrelevante: Simon gosta da pessoa que Blue se mostrou através dos e-mails, e isso já basta.

Foi lá que encontrei a postagem de Blue. Acabei me identificando. (...) Acho que foi a solidão. E é engraçado, porque não me vejo como uma pessoa solitária. Mas havia algo muito familiar no jeito como Blue descreveu o sentimento. Foi como se ele tivesse arrancado as ideias da minha cabeça. Ele falou sobre como você pode decorar os gestos de uma pessoa, mas nunca saber o que se passa na cabeça dela. E ter a sensação de que todos somos casas com aposentos enormes e janelas pequenininhas. 

[Resenha] O Lado Feio do Amor - Colleen Hoover

3:34 PM / Ana Letícia Lima

É assim que uma pessoa desenvolve atração por alguém. Ele está longe, então de repente, ele está em todo lugar, quer você queira ou não.


Tate acabou de se mudar para a casa do seu irmão mais velho para dar continuidade ao seu mestrado na cidade. Logo no primeiro dia no novo apartamento ela conhece Miles, mas de uma forma não muito boa: ele estava completamente bêbado e desmaiado na porta, repetindo diversas vezes o nome Rachel.

Os dias passam, a bebedeira vai embora, e Miles e Tate vão se aproximando cada vez mais. A atração mútua que sentiam um pelo outro é totalmente perceptível, e eles finalmente cedem ao desejo. Porém, Miles tem duas condições para levar o pseudo-relacionamento a diante: Tate não pode lhe fazer nenhuma pergunta sobre seu passado e nem esperar nada do futuro. Para ela, parecia o plano perfeito.

Porém, com o passar do tempo a relação baseada somente em sexo passou a incomodá-la. Tate sentia que precisava de algo a mais, e sabia que aos poucos se entregava cada vez mais ao Miles. Apesar dos sentimentos dela, ele se mantém firme na proposta inicial: nenhum tipo de envolvimento.

Paralela à história do relacionamento dos dois, vamos conhecendo o passado de Miles, contado de forma intercalada entre os capítulos do presente. Ainda durante a adolescência, o rapaz conheceu Rachel, com quem viveu uma intensa paixão, mas que além de todas as coisas maravilhosas, o fez conhecer o tão temido lado feio do amor.



Meus sentimentos com relação a esse livro foram bastante controversos. A começar pela história de Tate e Miles: esse tipo de história em que o mocinho é meio vilão e a mocinha se desfaz por ele não me convence mais, e garanto que também não funciona pra grande parte do público feminino atualmente.

As mulheres não querem mais ler sobre outras mulheres que largam tudo e sofrem por um cara. Esse tipo de coisa só nos faz sentir menos vontade de ler. E o que acontece nessa história é exatamente isso - uma garota que tinha tudo pra crescer sozinha na vida e ser muito feliz, mas que acaba se apaixonando pelo cara errado e se anulando perante a ele.

Não vejo problema algum em isso ser retratado em um livro, desde que de uma forma realista. O que Collen Hoover faz em O Lado Feio do Amor é um enorme desserviço às mulheres. Sem querer dar spoiler, mas talvez já dando, o livro cria uma romantização de um relacionamento que beira o abusivo e nos entrega ao final um mocinho que depois de fazer a protagonista de gato e sapato durante a história toda, resolve que ela é o amor da sua vida em menos de 5 páginas. Repito: isso não é mais atrativo.

O único ponto que realmente me prendeu ao livro foram os capítulos dedicados ao passado de Miles. A autora soube colocar a pitada exata de mistério e foi nos entregando pouco a pouco a história, de uma forma a deixar o leitor totalmente vidrado em descobrir o final. Esses capítulos também tiveram uma construção interessante, em que grande parte era narrado em estrofes semelhantes às de um poema, utilizadas principalmente quando Miles falava de Rachel.

Alguns pontos realmente me incomodaram bastante, mas não vou me prolongar neles. Pra isso, fiz um vídeo no canal discutindo sobre a idealização dos romances nos News Adults e como isso afeta diretamente nossas experiências como mulher:





Infos:
Título original: Ugly Love
Autora: HOOVER, Colleen
Editora: Galera Record
ISBN: 9788501105738
336 páginas

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