31 de dezembro de 2014

[Resenha] A Terapeuta - Gaspar Hernández

Mesmo assim, o fato de que não fosse um turista fez de seu ato algo doentio. Mas, no final, ele não é mesmo um doente? Não é a ansiedade uma doença? E não é uma doença a paixão? Todo dia pensando na pessoa desejada, esperando notícias suas. Há alguma diferença com a obsessão?


O subtítulo do livro logo me chamou atenção: "um romance sobre a ansiedade". Recentemente descobri que faço parte da parcela de pessoas que sofre desse mau. O frio na barriga, a inquietude, a angústia - a ansiedade elevada a um nível de doença. Ao ler esse livro tinha certeza que algo em mim seria tocado. E foi.

Em A Terapeuta conhecemos Héctor, que após presenciar um assassinato passa a ter sensações estranhas e que antes não se recordava de sentir. Um dia, andando pela rua, simplesmente não conseguiu mais se mover. A angústia era tanta, que simplesmente ficou ali, parado, com a multidão passando por ele pela calçada como se não estivesse ali. Quem o socorre é Eugenia Llort, a mesma psicóloga que o atendeu no dia do assassinato - do qual, por sinal, não consegue se recordar.

Depois desse episódio de paralisia - sua primeira crise de ansiedade -, Héctor inicia um tratamento com a terapeuta. Dentre as práticas estão visitas ao local onde o crime ocorreu, como forma de tentar resgatar as lembranças do fatídico dia e também ao teatro onde Héctor costumava atuar, onde desde o ocorrido não consegue exercer sua profissão de ator.

Aos poucos, Eugenia passa a todos os dias assistir às suas apresentações. Na cabeça de Héctor, sua presença lá poderia evitar que uma nova crise de ansiedade acontecesse, e só assim conseguia atuar com tranquilidade. Era como um porto seguro e, aos poucos, uma estranha obsessão pela terapeuta foi surgindo.

Paralelo a isso, Eugenia lida com seus próprios problemas, um deles o mais bizarro de todos: incorporar as doenças e manias de seus pacientes. Ao tratar um homem com TOC, poucos dias depois estava com os mesmos habitos dele. O último a ser tratado fora diagnosticado com agorafobia - uma estranha fobia à sair de sua própria casa, conviver com outras pessoas. E, como já era esperado, Eugenia também se sentia presa nessa fobia.

A narrativa é bem mais madura, diferente da qual estou acostumada, porém de uma forma que gosto bastante. Dividido em duas partes - a primeira contando a história de Héctor e a segunda, de Eugenia, o livro mostra como muitas vezes consideramos normais, certos comportamentos provenientes de algumas doenças. Como foi o caso do personagem, que só depois de diagnosticado conseguiu entender as diversas crises de ansiedade que teve durante a vida.

Um ponto negativo, ao meu ver, foi a escrita em terceira pessoa. Tratando-se de uma doença como a ansiedade, é muito difícil até mesmo para quem a vive descrever qual é o sentimento durante uma crise, e um narrador de fora descrevendo isso acaba deixando o relato ainda mais raso. Mesmo assim, consegui me enxergar em muito do que o personagem Héctor passou.

Em uma primeira leitura achei bastante confuso. Posso dizer que ao terminar o livro você não terá uma conclusão concreta sobre o que aconteceu a nenhum dos dois personagens principais. Mas refletindo um pouco mais sobre o assunto percebi como isso ajudou a dar à obra a essência do assunto tratado. A confusão, o não-entendimento e até a agonia que se sente por vezes durante a leitura são típicas da ansiedade, e o autor foi brilhante nesse aspecto.

De toda forma, recomendo a leitura pela delicadeza do assunto, e pela importância de ser discutido e entendido pelo maior número possível de pessoas. 

Ps.: não encontrei a capa original para ilustrar o post, porém, a versão original é exatamente igual (e eu confesso que fiquei apaixonada pela fotografia).

Infos:
Título Original: La Terapeuta
Autor: HERNÁNDEZ, Gaspar
Editora: Casa da Palavra
ISBN: 9788577344994
207 páginas
Livro cedido para resenha pela editora.
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