16 de outubro de 2016

[Resenha] Em Algum Lugar nas Estrelas - Clare Vanderpool

E ao fundo da história de Early soava a voz dela. A alma dela. A tristeza e a nostalgia dela. Porque, quando chove, é sempre Billie Holiday.

Jack Baker perdeu a mãe ainda criança e é criado pelo pai, que nunca pareceu se importar muito com ele. Com a Segunda Guerra acontecendo e o pai convocado para servir ao exército, Jack é mandado para um internato no Maine - um local completamente diferente do que está acostumado a viver e com costumes bem específicos. 

O garoto se sente bastante deslocado e sozinho no colégio, e chega até a sofrer um certo bullying por parte dos outros estudantes, mas a solidão se torna um pouco mais amena quando conhece Early Auden. Early é bastante peculiar: não comparece às aulas (ou as abandona quando não concorda com algo que o professor diz), mora em um quartinho dedicado ao zelador, tem a mania de separar balas de goma para se acalmar e tem um cronograma de músicas a serem ouvidas para cada dia da semana. Além disso, o menino tem uma facilidade assustadora com os números, e uma maneira única de enxergá-los.

E é justamente através dessa forma de lidar com a matemática que a aventura dos amigos começa. Quando, em uma aula, um professor anuncia que finalmente podem ter sido descobertos os números finais do enigmático PI, Early passa a explicar para Jack o porquê aquela afirmação está incorreta, tudo através de uma história que envolve um herói, constelações, a busca por reconhecimento e um grande Urso Apalache.

A princípio Jack fica desconfiado e trata Early como um lunático incapaz, mas durante as festas de fim de ano quando os dois são os únicos a permanecerem na escola e Early o convida para uma busca pelo Urso através da Trilha Apalache, a história de PI passa a fazer sentido até demais para o menino.


Em Algum Lugar nas Estrelas não é só mais uma edição bonita, é uma história que me tocou profundamente. Apesar de sentir muita raiva da forma como Jack trata Early durante o livro, aos poucos fui compreendendo as motivações da autora ao construir dois personagens tão únicos. Cada detalhe da história é importante e faz alguma diferença no desfecho, e a mistura de realismo fantástico com literatura juvenil com aquele plus de ensinamentos maduros fizeram a trama não sair da minha cabeça por dias, e ao final senti que Jack e Auden já eram meus amigos há anos.

A maneira como Early Auden é retratado no livro - suas características, manias e a inteligência acima do comum -, levam o leitor a acreditar que trata-se da descrição de um jovem com a Síndrome de Asperger, apesar da autora não utilizar essa denominação durante a história, já que a síndrome não era conhecida na época em que a história se passa.

Minha única ressalva não é nem com relação à história, mas sim à revisão do livro. As edições da Darkside são sempre muito elogiadas (não é pra menos: todas em capa dura, com artes e diagramação lindíssimas), porém, em minhas duas experiências com a editora encontrei erros gravíssimos de revisão, e nesse livro com uma frequência assustadora. Nesse quesito acredito de verdade que a editora poderia se empenhar tanto na revisão como se empenha na parte estética dos livros. Afinal, uma capa bonita pode fazer parte da experiência de leitura, mas uma boa revisão pode contribuir ainda mais.

Infos:
Título original: Navigating Early
Autora: VANDERPOOL, Clare
Editora: Darkside Books
ISBN: 9788566636833
288 páginas


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4 de outubro de 2016

Netflix divulga data de estréia da adaptação de "Desventuras em Série"

EU NÃO TÔ BEM.

É isso mesmo que você leu nesse título: a Netflix divulgou nessa terça-feira, a data de estreia da adaptação para a tv da coleção Desventuras em Série, juntamente com um teaser que tem todo o clima que já conhecemos bem das páginas dos livros. Preparados? Até a data escolhida reflete a melancolia da história: a primeira sexta-feira 13 de 2017, em janeiro.




Se você ainda não conhece a saga dos tristes irmãos Baudelaire, 8 dos 13 livros já foram resenhados no blog e você pode ler clicando aqui.

23 de setembro de 2016

[Resenha] O Último Adeus - Cynthia Hand

O tempo passa. É a regra. Independentemente do que aconteça, por mais que pareça que tudo em sua vida está congelado em um determinado momento, o tempo segue em frente.

Lex tem 18 anos e perdeu seu irmão mais novo há pouco tempo. Além do peso da morte, ela ainda tem que lidar com o fato de ter sido ela a encontrar o corpo de Tyler, que se suicidou na garagem da casa da família, e com a dor de não ter percebido que havia algo de errado com ele. Não houve nenhuma pista do que aconteceria, nenhuma despedida, apenas um bilhete destinado à mãe que dizia o quanto ele se sentia vazio.

Logo após o ocorrido, Lex foi encaminhada a um terapeuta, que depois de muitas sessões aconselhou-a a construir um diário onde escreveria, dentre outras coisas, sobre suas lembranças ligadas ao irmão. A missão parece impossível em um primeiro momento: seus sentimentos estão completamente escondidos, principalmente a culpa que sente pelo que aconteceu. 

O ponto principal que a faz, aos poucos, conseguir colocar tudo para fora, é também o maior mistério do livro. Um dia sua mãe diz sentir o perfume e a presença de Tyler na casa. Lex, completamente cética, ignora o acontecimento, mas em pouco tempo passa a não só sentir essa presença também, como a enxergar a imagem do irmão e a ter sonhos muito realistas com ele.

Fantasmas? Alucinações? Ou só o peso da falta de Tyler? Essa é uma pergunta que talvez nem Lex e sua mãe consigam responder, mas o importante é a força que essa presença tem na vida das duas. Aos poucos, a garota vai passando por cada estágio do luto, relembrando seus momentos mais especiais com Tyler e também entendendo pouco a pouco quais poderiam ser os motivos para que ele desejasse tanto acabar com a própria vida.


Esse livro mexeu bastante comigo, assim como todos que tratam sobre suicídio. A dor de Lex é nítida em cada linha dessa história, que ganha um toque mais íntimo ao ser escrita em primeira pessoa. Depois de tantos livros narrados pelo outro lado - o lado de quem quer tirar a própria vida - foi muito importante para meu processo de aceitação da depressão enxergar como as pessoas que convivem com alguém com essa doença também sofrem. 

A doença que levou o irmão ao suicídio não afetou só a sua vida, mas também a da mãe, que agora passa os dias sem rumo e com lágrimas nos olhos; a de Lex que viu seu rendimento no colégio despencar e a esperança de realização de seus sonhos desaparecer e até mesmo seus amigos mais próximos. Sendo o suicídio um assunto ainda tabu e que muitas pessoas ainda acreditem que falar sobre é uma espécie de incentivo ao ato, esse livro mostrou que realmente se trata de algo contagioso, mas não de maneira que leve outas pessoas à imitação, mas sim, que deixe um rastro de dor e desesperança onde quer que aconteça.

Em tempos de setembro amarelo e com a discussão a respeito de doenças mentais cada vez mais forte, é um livro necessário.

Infos:
Título original: The last time we say goodbye
Autora: HAND, Cynthia
Editora: Darkside Books
ISBN: 9788594540027
350 páginas
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21 de setembro de 2016

[Resenha] Garoto 21 - Matthew Quick

Acredito de verdade que as noites em que meu pai me vê jogar basquete são as melhores da vida dele. Essa é uma das razões que me fazem amar tanto o basquete: a chance de fazer meu pai feliz.

Garoto 21 foi um teste pra mim: li Perdão, Leonard Peacock do mesmo autor no começo do ano e me decepcionei bastante. Mas depois de tantas críticas positivas a respeito desse novo livro que resolvi me arriscar novamente - e foi a melhor coisa que eu poderia ter feito!

Finley é um adolescente que vive pelo basquete. Morando apenas com o pai e o avô cadeirante em um bairro dominado pela máfia irlandesa e pelo tráfico e drogas e sendo um dos únicos garotos brancos da escola, ele encontra seu refúgio nas quadras e em sua namorada e melhor amiga, Erin, que conheceu ainda criança por conta do esporte.

Apesar de ser calado e um tanto quanto anti-social, é em Finley que o treinador do time de basquete do colégio confia a difícil tarefa de fazer companhia a um novo aluno. Russell foi um dos astros do basquete no ensino médio, muito cotado por olheiros de diversas universidades, mas que depois do assassinato de seus pais acabou se fechando em seu próprio mundo e deixando o basquete de lado. Agora ele se identifica como Garoto 21, um extraterrestre que veio ao planeta para estudar as emoções dos seres humanos.

A tarefa de Finley é não apenas mostrar a Russ como as coisas funcionam por lá, mas ser seu ombro amigo e convencê-lo a voltar pro basquete. Porém, o Garoto 21 e ele jogam não só com o mesmo número no uniforme, mas também na mesma posição, o que ameaça a permanência de Finley na temporada. Além disso, o treinador acredita que, de alguma forma, os dois podem se ajudar através de suas próprias experiências de vida.

É a partir daí que, com algumas dificuldades, é claro, a amizade entre os garotos vai se estruturando e se consolidando, a ponto de conseguir fazer com que Finley consiga não só encarar o seu passado também doloroso, mas também se abrir pela primeira vez. Ao mesmo tempo, Russell vai deixando sua armadura se desfazer aos poucos, voltando a ser quem ele era antes de sua vida ser destruída.


Grande parte do livro é focada no basquete. Assim como no início o esporte é a salvação de Finley, aos poucos passa também a ser um alicerce para que Russell se reencontre. Apesar de muito importante para a história e para os personagens, o esporte não se torna o foco principal do livro e nem torna a leitura cansativa para quem não entende ou não gosta do assunto, sendo apenas mais um detalhe da vida dos protagonistas, assim como a obsessão de Russ pelo espaço.

O livro acaba tomando um rumo bastante inesperado e, apesar de ter gostado muito desse plot, achei que faltou uma melhor construção para que esses acontecimentos não parecessem tão jogados. Talvez isso tenha a ver com o estilo de livro que estou acostumada, que quando trata de um mistério o acentua a todo momento, mas acredito que os segredos e o passado dos personagens poderiam ter sido mais explorados, assim como alguns acontecimentos do presente poderiam ter sido melhor explicados. Foi por esse motivo que atribuí a nota 4 ao livo no Skoob.

De qualquer forma, a narrativa do autor é bastante fluida e proporciona uma leitura rápida e agradável. Apesar disso, trata de assuntos sérios e me deixou com o coração apertado ao final, principalmente pelas lições de amizade e esperança que o livro conseguiu transmitir. Fica a indicação! (E Matthew Quick está oficialmente redimido no meu coração ♥)
Infos:
Título original: Boy 21
Autor: QUICK, Matthew
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788580579093
270 páginas
Livro cedido para resenha pela editora.
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