19 de janeiro de 2017

[Resenha] O Adulto - Gillian Flynn

Observei a casa, que me observou de volta através das janelas longas a malévolas, tão altas que era possível uma criança ficar de pé no parapeito. E uma estava.

Já declarei meu amor pela Gillian Flynn diversas vezes, inclusive em um vídeo especial sobre as obras dela lá no canal. Hoje, é a vez de divulgar e enaltecer mais uma vez a escrita dessa autora maravilhosa!

O Adulto é um conto sobre um momento bastante peculiar da vida de uma jovem: após anos trabalhando no ramo do sexo, mais especificamente sob a função de masturbar seus clientes, a jovem resolve apostar em um ramo diferente, dessa vez, aplicando pequenos golpes através de um trabalho como vidente. Sua primeira cliente é Susan Burke que, a princípio, parece desconfiar dos trabalhos da suposta vidente, mas acaba revelando ter problemas maiores.

Susan acredita que algo em sua casa está muito errado. O solar do século XIX comprado há pouco tempo guarda seus pequenos segredos, como uma mancha de sangue que apareceu misteriosamente em uma das paredes. Enxergando ali a chance de aplicar mais um de seus golpes, a jovem vende à Susan um serviço de limpeza espiritual no local, mas ao conhecer a casa e, principalmente, o enteado de sua cliente, as coisas mudam de perspectiva, e ela tem certeza de que algo realmente está muito errado.


Muito mais do que os thrillers com construções de personagens com psicológicos complexos já típicos da autora, O Adulto traz uma aura de mistério com elementos dos clássicos do terror - a casa mal assombrada, a criança supostamente amaldiçoada e os eventos sem explicação em torno da história principal. Tudo isso sem perder, é claro, o toque Gillian Flynn que nos faz duvidar a todo momento de tudo e de todos.

Por se tratar de um conto as coisas aconteceram muito mais rápido do que nas outras histórias que li da autora, e nesse caso, acredito que foi a melhor escolha, se encaixando perfeitamente na história e sem deixar pontas soltas (à exceção das propositais). Mais uma vez me deparei com personagens pouco dicotômicos, humanos e com seus lados bons, ruins e por vezes, péssimos e aterrorizantes. Nada é o que parece, e foi essa fórmula que me conquistou mais uma vez, colocando O Adulto dentre minhas obras favoritas de Gillian Flynn.

Infos:
Título original: The grownup´
Autora: FLYNN, Gillian
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788580579451
60 páginas.

Livro cedido para resenha pela editora.
Para comprar: Amazon | Submarino | Americanas
(comprando através dos links do blog, a blogueira que vos fala ganha um dinheirinho pra investir em mais resenhas pra cá)

16 de janeiro de 2017

[Resenha] Fãs do Impossível - Kate Scelsa

Que nós possamos viver impossivelmente (...). Contra todas as expectativas. Que as pessoas nos olhem e se perguntem como jóias assim podem reluzir no triste deserto do mundo. Que nós possamos viver o impossível.

Se você leu As Vantagens de Ser Invisível provavelmente vai conhecer essa história de algum lugar: um garoto problemático que tem como único amigo seu professor de Inglês conhece outros dois seres humanos incríveis (e tão problemáticos quanto) que mudam sua vida e de repente ele tem amigos e todo mundo se ama e fica bem. Se acrescentar uma pitada de romance LGBT você tem a história não tão original de Fãs do Impossível.

Eu, como a maior maluca por As Vantagens que você respeita, já quis conhecer a história logo de cara, e não me arrependo: apesar de enredos parecidos, Fãs do Impossível tem alguns detalhes que fazem toda a diferença e me fizeram não largar o livro até terminá-lo.

Os personagens em questão são Jeremy, Mira e Sebby.
Jeremy acabou de voltar para a escola depois de um período afastado. Como forma de se reintegrar ao ambiente, seu professor de inglês sugere que ele crie um clube de artes com os outros alunos. O problema é: quem convidar? Para se oficializar, o clube precisa de ao menos 10 membros, e Jeremy não tem sequer um único amigo que não seja seu professor.

É assim que ele acaba conhecendo Mira, a peculiar garota nova da sala e que aceita fazer parte do clube, trazendo consigo seu melhor amigo Sebby, que nem ao menos é aluno daquela mesma escola (e talvez de nenhuma outra). Dessa forma, os três acabam criando um laço de amizade e companheirismo que consegue ultrapassar até mesmo as barreiras dos problemas que cada um deles teve no passado.


A narrativa do livro foi algo que me encantou: além de cada capítulo ser narrado por um dos personagens, eles também são escritos de uma maneira que eu vi em poucos livros. Enquanto os capítulos narrados por Jeremy são em primeira pessoa e os de Mira, em segunda, quando o narrador em questão é o Sebby, a escrita se dá em terceira pessoa. Dá pra imaginar? Quando fiquei sabendo disso achei que seria super estranho, mas se encaixou perfeitamente na trama e no contexto do personagem.

Eu tinha grandes expectativas a respeito desse livro, primeiramente pelas comparações com As Vantagens e, em segundo, por saber que cada um dos personagens traz consigo um histórico de problemas psicológicos, mas acho que me precipitei. Tudo foi tratado de forma bastante superficial, o que me desanimou um pouco. Durante toda a leitura eu esperei um grande plot, mas acabei não recebendo isso.

Como um todo, a história é muito boa, principalmente nos momentos em que os três personagens principais estão juntos e descobrindo um ao outro. Pequei ao esperar algo tão incrível quando os outros YAs aos quais essa obra foi comparada. É um livro bastante bom, mas evite comparações, pois isso pode acabar gerando decepções. 


Infos:
Título original: Fans of the impossible life.
Autora: SCELSA, Kate
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788551000403
335 páginas


Livro cedido para resenha pela editora.
Para comprar: Amazon | Submarino | Americanas
(comprando através dos links do blog, a blogueira que vos fala ganha um dinheirinho pra investir em mais resenhas pra cá)

11 de janeiro de 2017

Sobre sumiços e recomeços

Oi pessoal! Quanto tempo  
Já estava com saudades de colocar meus pensamentos por aqui, dividir minhas leituras com vocês, ligar a câmera e falar com muita emoção sobre algum livro que gostei demais e vocês pre-ci-sam ler, etc. Infelizmente o final de 2016 não foi dos melhores pra mim e eu acabei me afastando um pouco do blog e do canal, bem como das leituras. Os motivos foram os mais variados e eu achei válido dividir com vocês, principalmente com aqueles que se preocuparam e me procuraram durante esse tempo.

Em primeiro lugar, como contei lá no último post do projeto jornalista, eu finalmente havia conseguido um estágio na minha área. Estava muito feliz, obviamente, mas ao mesmo tempo sobrecarregada. Como o local onde eu estagiava era longe da minha casa, eu acabava por sair às 8h da manhã e só retornar às 23h, depois da faculdade. Era bastante puxado, e eu acabei não conseguindo me dedicar, principalmente ao canal, que demandava um tempo extra relacionado à edição dos vídeos. No final do ano acabei saindo desse estágio - e entrando pra um outro que era meu sonho desde antes mesmo de começar a faculdade. Mais pra frente conto sobre isso, mas já adianto: estou amando, o horário é ótimo, perto da minha casa e, com isso, ganho mais tempo para voltar pro Poesia.

Mas tá. E os finais de semana? Não rolava usá-los pra cuidar do blog e do canal?

Ok, agora vem o segundo motivo do meu sumiço: em julho de 2016 entrei pro elenco de um musical. Parece muita loucura, mas eu realmente entrei de cabeça e, quando vi, estava passando meus sábados todinhos ensaiando e, o melhor, amando cada segundo. Posso dizer com convicção que entrar para o elenco de Hairspray foi a melhor coisa que me aconteceu no ano, e eu me dediquei de corpo e alma a isso. Na reta final, ensaiávamos aos sábados e domingos durante todo o dia, aos feriados e até mesmo de madrugada. Foi muito puxado, porém, muitíssimo gratificante. Em breve farei um post contando mais sobre essa experiência mas, por enquanto, fiquem sabendo que minha ausência por esse motivo foi muito válida.

Em último vem a parte mais complicada e mais pessoal de tudo. Já falei comentei sobre isso em alguns outros posts e até no canal, mas agora vamos falar abertamente - eu tenho alguns problemas psicológicos. Durante a maior parte do tempo eles estão controlados e pouco interferem na minha vida. Porém, em momentos de sobrecarga física, o mental acaba afetado também, e com tantas tarefas, pressões e outros aspectos da minha vida pessoal que não iam muito bem, a depressão e a ansiedade deram as caras novamente. Isso me afetou demais, a ponto de me deixar completamente desmotivada e sem ler durante dois meses, e o fato de não conseguir realizar uma tarefa tão natural como essa me deixava ainda pior, com o peso da culpa sob as minhas costas e uma sensação de fracasso pessoal.

Graças a Deus tive muita força nos últimos meses, e lá pra metade de dezembro eu já me sentia muito melhor e mais motivada. Consegui concluir algumas leituras pendentes e refletir muito sobre como, principalmente no mundo do booktube e dos blogs literários, às vezes nos obrigamos a ler (algo que deveria ser feito por puro prazer). Não quero me aprofundar nisso pois pretendo gravar um vídeo sobre o assunto, mas por enquanto, só posso dizer que essa pausa nas leituras e nas postagens me fez muito bem e que mudei completamente o meu pensamento a respeito de metas literárias, maratonas e outras coisas do tipo.

E depois de tantas explicações, vamos ao que interessa. Esse post é pra dizer que eu voltei!

Agradeço imensamente a todos que não desistiram de mim e do Poesia durante esses meses de sumiço, que entraram em contato e se mostraram preocupadas e até com saudades do meu conteúdo. A minha motivação maior pra retornar foi vocês (porque, confesso: eu havia pensado em desistir). Tenho pensado em novas formas de produzir conteúdo pra vocês, estou com a cabeça fervilhando de ideias e sei que sem esse tempo que tirei pra mim, nada disso seria possível.

Vamos continuar juntos em 2017? 

16 de outubro de 2016

[Resenha] Em Algum Lugar nas Estrelas - Clare Vanderpool

E ao fundo da história de Early soava a voz dela. A alma dela. A tristeza e a nostalgia dela. Porque, quando chove, é sempre Billie Holiday.

Jack Baker perdeu a mãe ainda criança e é criado pelo pai, que nunca pareceu se importar muito com ele. Com a Segunda Guerra acontecendo e o pai convocado para servir ao exército, Jack é mandado para um internato no Maine - um local completamente diferente do que está acostumado a viver e com costumes bem específicos. 

O garoto se sente bastante deslocado e sozinho no colégio, e chega até a sofrer um certo bullying por parte dos outros estudantes, mas a solidão se torna um pouco mais amena quando conhece Early Auden. Early é bastante peculiar: não comparece às aulas (ou as abandona quando não concorda com algo que o professor diz), mora em um quartinho dedicado ao zelador, tem a mania de separar balas de goma para se acalmar e tem um cronograma de músicas a serem ouvidas para cada dia da semana. Além disso, o menino tem uma facilidade assustadora com os números, e uma maneira única de enxergá-los.

E é justamente através dessa forma de lidar com a matemática que a aventura dos amigos começa. Quando, em uma aula, um professor anuncia que finalmente podem ter sido descobertos os números finais do enigmático PI, Early passa a explicar para Jack o porquê aquela afirmação está incorreta, tudo através de uma história que envolve um herói, constelações, a busca por reconhecimento e um grande Urso Apalache.

A princípio Jack fica desconfiado e trata Early como um lunático incapaz, mas durante as festas de fim de ano quando os dois são os únicos a permanecerem na escola e Early o convida para uma busca pelo Urso através da Trilha Apalache, a história de PI passa a fazer sentido até demais para o menino.


Em Algum Lugar nas Estrelas não é só mais uma edição bonita, é uma história que me tocou profundamente. Apesar de sentir muita raiva da forma como Jack trata Early durante o livro, aos poucos fui compreendendo as motivações da autora ao construir dois personagens tão únicos. Cada detalhe da história é importante e faz alguma diferença no desfecho, e a mistura de realismo fantástico com literatura juvenil com aquele plus de ensinamentos maduros fizeram a trama não sair da minha cabeça por dias, e ao final senti que Jack e Auden já eram meus amigos há anos.

A maneira como Early Auden é retratado no livro - suas características, manias e a inteligência acima do comum -, levam o leitor a acreditar que trata-se da descrição de um jovem com a Síndrome de Asperger, apesar da autora não utilizar essa denominação durante a história, já que a síndrome não era conhecida na época em que a história se passa.

Minha única ressalva não é nem com relação à história, mas sim à revisão do livro. As edições da Darkside são sempre muito elogiadas (não é pra menos: todas em capa dura, com artes e diagramação lindíssimas), porém, em minhas duas experiências com a editora encontrei erros gravíssimos de revisão, e nesse livro com uma frequência assustadora. Nesse quesito acredito de verdade que a editora poderia se empenhar tanto na revisão como se empenha na parte estética dos livros. Afinal, uma capa bonita pode fazer parte da experiência de leitura, mas uma boa revisão pode contribuir ainda mais.

Infos:
Título original: Navigating Early
Autora: VANDERPOOL, Clare
Editora: Darkside Books
ISBN: 9788566636833
288 páginas


Para comprar: Submarino | Americanas | Amazon
(comprando através dos links do blog, a blogueira que vos fala ganha um dinheirinho pra investir em mais resenhas pra cá)