10 de novembro de 2017

Como John Green me salvou (de novo)


Vocês provavelmente estão cansados de me ouvir gritar aos quatro ventos o quão grata eu sou ao John Green e aos seus livros, principalmente Quem é você, Alasca?. Já escrevi posts aqui e aqui sobre isso, e na semana passada, assim que terminei o novo livro, Tartarugas Até Lá Embaixo, fiz textão no facebook repetindo tudo.

Mas hoje, me perdoem, eu vou de novo dizer: John Green salvou a minha vida. Mais uma vez. Com mais um livro. Com mais palavras certas nas horas certas e com mais um tijolinho de esperança no espaço vazio que eu, de vez em quando, sinto dento de mim.

Falar sobre saúde mental na internet - a minha, principalmente -, não é mais vergonha ou tabu algum pra mim. Sou diagnosticada com depressão e ansiedade desde 2014 e de lá pra cá, tive dias bons e ruins como qualquer pessoa que não conviva com essas doenças. Mas esse ano, especialmente nesse último mês, foi difícil manter o otimismo (que quase nunca habitou em mim).

Tive uma das piores crises, perdi meu namorado por conta delas, quase não me formo porque meus pensamentos invasivos não me deixam escrever meu TCC. Opa! Pensamentos invasivos? Eu já li isso em algum lugar. Pois é. Em Tartarugas. Assim como em Alasca eu me deparei com um Miles com todas as inseguranças que eu também tinha e em A culpa, com uma Hazel Grace sonhadora e apaixonada como já fui um dia.

Voltando à minha crise: nesses dias que só consigo descrever como dias de inferno, em que passava horas na cama embolando meu cabelo em lágrimas e me perguntando porquê meus níveis de serotonina não poderiam ser normais, eu recebi uma mensagem da Isabella, do Entre Parágrafos. Era essa última página do Tartarugas, parte dos agradecimentos do John.


Não vou dizer que foi uma frase que mudou a minha vida, mas me deu forças pra, ao menos, passar uma escova no cabelo, acender a luz e começar a ler o livro. E eu devorei. E me senti como não me sentia há muito, muito tempo: plena, compreendida, tocada, representada. Aza Holmes também tinha pensamentos invasivos (ou intrusos, como ela chama). E John também. E nada disso impediu que ele escrevesse seis livros, se casasse, tivesse um canal no youtube, criasse dois filhos e fizesse o tanto de milhões de coisas incríveis que ele faz.

E foi aí, meus caros, que John Green me salvou mais uma vez: se Alasca pôde ser escrito durante uma crise depressiva do autor, por que o meu TCC (que também é um livro mas bem menos incrível), não pode ser? Se, apavorado pelo TOC, há um ano atrás John dizia que talvez nunca mais escrevesse um livro e conseguiu me erguer um pouquinho do fundo do meu poço com Tartarugas, por que eu não conseguiria escalar o resto desse poço e viver apesar de?

Apesar de viver um quadro ansioso diariamente que me causa depressão ocasionalmente. Apesar de sentir que nunca vou ser amada novamente porque todos os meus namorados me deixaram por causa da doença. Apesar de ter pensamentos intrusos que me fazem acreditar que eu sou péssima e que o resto do mundo só me atura por pena. Apesar de falhar às vezes. Apesar dos tremores na perna. Apesar da insônia. Apesar das crises de ansiedade. Apesar da mania de controle. Apesar de tudo.

Apesar de tudo, John Green me mostrou que há vida. Que os transtornos mentais só vão me tirar isso se eu deixar. E eu não vou - por mim e por cada palavra que ele escreveu e já me salvou.

6 de novembro de 2017

[Resenha] Tartarugas até lá embaixo - John Green

Eu estava começando a entender que a vida é uma história que contam sobre nós, não uma história que escolhemos contar

Ok, vamos lá: começar essa resenha não é nada fácil por diversos motivos. O primeiro deles é que sou a maior fangirl de John Green em um raio de, sei lá, muitos quilômetros. Já contei sobre isso algumas vezes aqui no blog, e automaticamente quando alguém ouve o nome do João Verde, associa a mim.

Em segundo lugar, foram seis anos de espera até ter essa preciosidade em mãos, com expectativas que variavam entre "com essa sinopse, isso aqui vai flopar" e "eu sei que meu deus-da-escrita-jovem-contemporânea não vai me decepcionar". E não me decepcionou. Definitivamente. Com uma escrita muito mais madura do que a dos seus livros anteriores, mas sem perder o humor e as peculiaridades, Tartarugas até lá embaixo me fez ter certa fé na vida. (mas sobre isso vamos falar nos próximos posts dessa semana especial).

A sinopse nada convidativa vocês já devem conhecer: Aza Holmes é uma garota com TOC (e eu diria, traços de ansiedade) que descobre que o pai bilionário de um amigo de infância desapareceu. Além disso, estão oferecendo uma recompensa de 100 mil dólares para quem tiver qualquer informação sobre o paradeiro dele. E ela e a melhor amiga, Daisy - que na verdade a convence, quase a obriga - partem em busca de pistas para, finalmente, colocarem as mãos no dinheiro.

Mas vou te dizer aqui, bem baixinho, quase que em segredo: nada disso importa. Nada mesmo. A sinopse esconde aquilo que realmente faz o livro ser o mais sensível que John já escreveu (e olha que eu sou fascinada por Looking for Alaska). Eu diria que os personagens principais dessa história, na verdade, são os transtornos mentais.


As personagens vivem, sim, suas aventuras e suas vidas. Definitivamente não é um livro onde o foco é o transtorno. Mas ele está lá. Em cada almoço que Aza Holmes pensa nas milhões de bactérias que habitam seu estômago e a ajudam a digerir o seu lanche de mel e pasta de amendoim. No momento em que ela pensa encontrar o amor, mas tem medo dos micróbios transmitidos por um beijo. No calo que mantém aberto no dedo desde a infância e que machuca nos momentos de ansiedade para, depois, ficar ainda mais ansiosa pela possibilidade de uma infecção.

E isso - essa forma de abordar o transtorno não como o foco principal da história, mas também sem renegar a sua existência, tratando-o exatamente como ele é: mais um personagem na história da protagonista, e na do John e na minha - é o que me ganhou completamente. Eu não botava fé alguma nesse livro, não vou mentir. Não sou o tipo de fã que aplaude cada passo do ídolo. Mas dessa vez, em Turtles, sinto que John finalmente rompeu com o rótulo de 'autor-de-a-culpa-é-das-estrelas' que carregava desde então.

E rompeu com esse rótulo quebrando muitos paradigmas, o primeiro deles sobre os próprios transtornos, já que resolveu escrever sobre algo que ele vive. John vive com TOC, e mostra nesse livro que arrumar os livros da sua estante por cor ou tamanho não é TOC. Que a aflição que temos quando formas não estão alinhadas não é TOC. Que TOC é desesperador a ponto de te fazer engolir álcool em gel para matar supostas bactérias que vivem dentro de você.

Quebrou esse rótulo, também, com um final diferente de todos os outros que já escreveu e que, pra mim, foi o melhor de todos. Mostrando que o universo é completa e unicamente feito por possibilidades. Em nenhum dos livros do autor nós sabemos exatamente qual o destino dos personagens, isso é um fato. Isso não muda em Turtles. Mas John nos entrega algo que deveríamos sempre ter em mente, em qualquer história, em qualquer momento de nossas próprias vidas: as possibilidades. E a esperança de que transtornos mentais não devem ser capazes de paralisar nossas vidas.

Infos:
Título original: Turtle all the way down
Autor: GREEN, John
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788551002001
256 Páginas

Livro cedido para resenha pela editora
Para comprar: Amazon | Submarino
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3 de novembro de 2017

[Resenha] Outros jeitos de usar a boca - Rupi Kaur

"Você pode não ter sido meu primeiro amor
Mas foi o amor que tornou todos os outros
Irrelevantes"


Os pequenos poemas da Rupi Kaur já haviam dominado a internet quando o livro chegou ao Brasil. Reconhecê-los é fácil: a maioria deles fala sobre empoderamento feminino, amores (que podem ter dado certo ou não), corpo, sexo, e até mesmo sobre assuntos mais pesados, como machismo e abuso sexual, sempre acompanhados de uma ilustração simples que faça alguma referência ao texto.

Posso dizer que minhas impressões sobre o livro foram bastante bagunçadas entre si. Primeiro porque estava bastante ansiosa para conhecer o livro que tanta gente estava falando, inclusive pessoas nas quais confio muito no bom gosto e nas indicações, além de tratar de temas que muito me interessam. Porém, no fim das contas, terminei Outros jeitos de usar a boca confusa.

É inegável o reconhecimento que Rupi Kaur merece por se tratar de uma jovem poetisa indiana com traços feministas e que tem mais de um milhão e meio de seguidores nas redes sociais apenas com seus poemas. Porém, muita coisa do que vi no livro eu tive a impressão de 'já ter visto em algum lugar' - no caso, provavelmente, vi mesmo. Nas redes sociais.


Isso não tira, jamais, o mérito da autora. Porém, alguns outros textos eu realmente não havia visto. Mas eram tão parte do senso-comum, tão frase-feita, que não trouxe nenhuma novidade. Passaram batidos, e por vezes até com um gosto amargo na boca, de que com certeza a autora teria capacidade de criar coisas muito mais incríveis, assim como teve em outros momentos do livro.

Digo que minha opinião sobre ele é confusa porque apesar desses dois pontos que destaquei anteriormente, os textos que conseguiram me tocar me tocaram de uma forma única. Me tocaram de uma forma em que eu me senti contemplada, representada, compreendida. Parece que Rupi Kaur viveu comigo os últimos quatro anos da minha vida e os transformou em poema.

Desde a angústia dos amores devastadores, o trauma dos abusos, o quentinho no peito de um novo amor que vem pra esquecer o anterior. E sei que tudo isso não é porque sou especial, ou porque a autora e eu somos parecidas. É simplesmente pelo fato de sermos mulheres em uma sociedade onde isso é motivação para todo tipo de atrocidade. Rupi e eu passamos por isso. Minhas amigas que leram o livro também. As que não leram, idem. E é por isso, acredito eu, que o livro foi tão bem recebido.

Infos:
Título original: Milk and Honey
Autora: KAUR, Rupi
Editora: Planeta Brasil
ISBN: 9788542209303
208 páginas

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24 de setembro de 2017

[Resenha] Desventuras em Série, vol. 9: O Espetáculo Carnívoro - Lemony Snicket

O pesar, um tipo de tristeza que ocorre com maior frequência quando você perde alguém que ama, é uma coisa traiçoeira, porque pode desaparecer por um longo tempo e depois ressurgir quando você menos espera.

O Espetáculo Carnívoro é o nono livro de Desventuras em Série. Para ler as resenhas dos livros anteriores, clique aqui.

Depois de escaparem mais uma vez das ciladas armadas por Conde Olaf - dessa vez, fugindo de um hospital em chamas -, Violet, Klaus e Sunny viram o jogo: dessa vez, são eles quem perseguem o vilão ao entrarem escondidos no porta-malas do carro onde ele viaja com sua trupe. De lá, os órfãos podem ouvir os planos malignos do grupo, mas não se amedrontam e seguem com o objetivo.

O que os irmãos não imaginavam era que o destino final seria um circo bizarro e pouco frequentado onde aberrações se apresentavam em um espetáculo movido a comilança e violência, encontrariam uma vidente que sempre revelava seu paradeiro ao Conde, além de acabarem eles mesmos se tornando aberrações, precisando se disfarçar para fugir do vilão.

Esse é realmente o livro onde o jogo vira e acaba com aquela fórmula cansativa e repetitiva dos irmãos fugindo do vilão, passando de tutor em tutor para, no fim das contas, descobrir o Conde disfarçado em algum canto da história. Dessa vez, quem engana o vilão são os Baudelaire, se vestindo como aberrações que têm interesse em participar dos espetáculos do circo.

É também o livro que mais me chocou: apesar de a morte e outros temas bizarros serem tratados com extrema naturalidade durante toda a série, eu terminei esse livro com uma dor no coração fora do comum. As cenas desse volume me chocaram e me fizeram refletir sobre o fato de essa série não ser exatamente uma série infanto-juvenil. 

A história é permeada pela dualidade, pelo incentivo a enxergar os dois lados de todas as situações. Pela primeira vez vemos os órfãos sob uma perspectiva diferente da de vítima, que é mostrada durante os volumes anteriores. Dessa vez, quem está no papel de vítima é o vilão, ele é quem caiu na armadilha e nos disfarces de Violet, Klaus e Sunny. Isso mostra um amadurecimento na história e nos próprios personagens, que passaram a usar as mesmas armas que o vilão para atingirem os seus objetivos.



O mistério do C.S.C finalmente começa a ser desvendado, apesar do final trágico e sem muitas respostas. A presença da vidente é constante e, até o momento, foi a personagem secundária na qual mais me apeguei. Talvez nem os protagonistas tenham me conquistado tanto, tendo em vista a repetição incessante de seus trejeitos. 

Apesar do amadurecimento aparente (até mesmo por conta da idade, que vai avançando durante a série), os órfãos continuam a repetir as mesmas características desde o primeiro livro, e isso começou a se tornar cansativo - a bebê que morde tudo, a inventora que prende o cabelo com a fita e o menino que gosta de ler. Isso poderia ter sido melhor explorado.

Em contrapartida, os assuntos também passam a ser mais sérios e menos fantasiosos, como é o caso das aberrações do circo: nenhuma delas é uma aberração de verdade, apenas uma pessoa com características diferentes, como um corcunda, uma contorcionista e um ambidestro. Fica a reflexão sobre a aceitação das diferenças e a desconstrução do que é tido como normal.

Posso dizer que, até o momento, foi meu livro favorito da série, principalmente por conta dessa quebra com os anteriores, pelas reflexões mais profundas e pelo amadurecimento da história (embora o dos personagens ainda deixe a desejar).


Infos:
Título original: A Series of Unfortunate Events - The Carnivorous Carnival
Autor: SNICKET, Lemony
Editora: Seguinte
ISBN: 9788535919721
235 páginas


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