24 de setembro de 2017

[Resenha] Desventuras em Série, vol. 9: O Espetáculo Carnívoro - Lemony Snicket

O pesar, um tipo de tristeza que ocorre com maior frequência quando você perde alguém que ama, é uma coisa traiçoeira, porque pode desaparecer por um longo tempo e depois ressurgir quando você menos espera.

O Espetáculo Carnívoro é o nono livro de Desventuras em Série. Para ler as resenhas dos livros anteriores, clique aqui.

Depois de escaparem mais uma vez das ciladas armadas por Conde Olaf - dessa vez, fugindo de um hospital em chamas -, Violet, Klaus e Sunny viram o jogo: dessa vez, são eles quem perseguem o vilão ao entrarem escondidos no porta-malas do carro onde ele viaja com sua trupe. De lá, os órfãos podem ouvir os planos malignos do grupo, mas não se amedrontam e seguem com o objetivo.

O que os irmãos não imaginavam era que o destino final seria um circo bizarro e pouco frequentado onde aberrações se apresentavam em um espetáculo movido a comilança e violência, encontrariam uma vidente que sempre revelava seu paradeiro ao Conde, além de acabarem eles mesmos se tornando aberrações, precisando se disfarçar para fugir do vilão.

Esse é realmente o livro onde o jogo vira e acaba com aquela fórmula cansativa e repetitiva dos irmãos fugindo do vilão, passando de tutor em tutor para, no fim das contas, descobrir o Conde disfarçado em algum canto da história. Dessa vez, quem engana o vilão são os Baudelaire, se vestindo como aberrações que têm interesse em participar dos espetáculos do circo.

É também o livro que mais me chocou: apesar de a morte e outros temas bizarros serem tratados com extrema naturalidade durante toda a série, eu terminei esse livro com uma dor no coração fora do comum. As cenas desse volume me chocaram e me fizeram refletir sobre o fato de essa série não ser exatamente uma série infanto-juvenil. 

A história é permeada pela dualidade, pelo incentivo a enxergar os dois lados de todas as situações. Pela primeira vez vemos os órfãos sob uma perspectiva diferente da de vítima, que é mostrada durante os volumes anteriores. Dessa vez, quem está no papel de vítima é o vilão, ele é quem caiu na armadilha e nos disfarces de Violet, Klaus e Sunny. Isso mostra um amadurecimento na história e nos próprios personagens, que passaram a usar as mesmas armas que o vilão para atingirem os seus objetivos.



O mistério do C.S.C finalmente começa a ser desvendado, apesar do final trágico e sem muitas respostas. A presença da vidente é constante e, até o momento, foi a personagem secundária na qual mais me apeguei. Talvez nem os protagonistas tenham me conquistado tanto, tendo em vista a repetição incessante de seus trejeitos. 

Apesar do amadurecimento aparente (até mesmo por conta da idade, que vai avançando durante a série), os órfãos continuam a repetir as mesmas características desde o primeiro livro, e isso começou a se tornar cansativo - a bebê que morde tudo, a inventora que prende o cabelo com a fita e o menino que gosta de ler. Isso poderia ter sido melhor explorado.

Em contrapartida, os assuntos também passam a ser mais sérios e menos fantasiosos, como é o caso das aberrações do circo: nenhuma delas é uma aberração de verdade, apenas uma pessoa com características diferentes, como um corcunda, uma contorcionista e um ambidestro. Fica a reflexão sobre a aceitação das diferenças e a desconstrução do que é tido como normal.

Posso dizer que, até o momento, foi meu livro favorito da série, principalmente por conta dessa quebra com os anteriores, pelas reflexões mais profundas e pelo amadurecimento da história (embora o dos personagens ainda deixe a desejar).


Infos:
Título original: A Series of Unfortunate Events - The Carnivorous Carnival
Autor: SNICKET, Lemony
Editora: Seguinte
ISBN: 9788535919721
235 páginas


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5 de setembro de 2017

[Resenha] O Livro dos Baltimore - Joël Dicker

Se você encontrar este livro, por favor, leia-o. Quero que alguém conheça a história dos Goldman-de-Baltimore


Me apaixonei pela escrita de Joël Dicker à primeira lida: uma das primeiras resenhas que fiz pro blog foi do livro A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, que amei. Quando soube que o autor lançaria outra obra com o protagonista Marcus Goldman passei o livro sem cerimônia como primeiro na lista de próximas leituras.

Com narrativa em primeira pessoa, O Livro dos Baltimore conta o que aconteceu com Marcus Goldman antes do lapso que criatividade que levou o escritor a conhecer a história sobre o desaparecimento de Nola, no primeiro livro. Vale ressaltar que, apesar de se tratar do mesmo protagonista, as histórias não formam uma narrativa linear e muito menos uma série, podendo ser lidos separadamente sem interferência no entendimento das duas histórias.

Nesse caso, a narrativa não-linear vai intercalar o momento presente, onde Marcus se mudou para uma casa um tanto quanto isolada em uma cidade pequena após receber os direitos autorais do seu primeiro livro; e o passado, nas décadas de 80, 90 e 2000, através do livro que escreve contando a história sobre como sua família foi dividida entre os Goldman-de-Baltimore - os tios ricos e bem sucedidos - e os Goldman-de-Montclair, a família mais ou menos na qual ele nasceu. 

O narrador deixa claro que em um determinado momento da trama uma tragédia aconteceu, chamada apenas de O Drama, responsável por desestruturar e tirar os Goldman-de-Baltimore do posto de família de comercial de margarina. O Drama é citado em praticamente todos os capítulos da obra, e apesar da repetição um pouco irritante no começo (já que o leitor não faz a menor ideia do que possa ter acontecido de tão grave), acaba por preparar o território, tirando um pouco da carga dramática que o fato poderia ter quando revelado.


O destaque da trama é a história de amizade nutrida entre Marcus e seus primos, Hillel e Woody, durante a infância e adolescência. Hillel, franzino e esquisito, acaba encontrando um porto seguro em Woody, um garoto desajustado e que é adotado pela família. Crescendo juntos, os três se encontram todo o verão e dividem aventuras e confissões. A amizade, porém, é abalada com a chegada de Alexandra, que ganha o coração dos três rapazes e gera a primeira ruptura entre eles e que, mais tarde, desencadeará nos acontecimentos retratados no livro que Marcus escreve durante a trama.

A história de amizade entre os três é capaz de fazer até mesmo o leitor mais coração de pedra retomar suas lembranças da infância, até mesmo as mais amargas: as brincadeiras na rua com os primos durantes as férias, a inveja daquele lado mais rico da família que podia comprar tudo aquilo que você nunca pôde, a primeira paixão, a inveja do amigo mais forte e mais bonito, a primeira desilusão amorosa... Hillel, Woody e Marcus são o retrato exato dos dilemas da transformação da criança para o adolescente e, posteriormente, para a vida adulta.

Jöel teve a capacidade de, novamente, utilizar a metalinguagem de maneira perspicaz, sem tornar a história cansativa ou confusa e entregando uma trama sem fios soltos e consistente. Além disso, a construção do mistério em torno d'O Drama não foi forçada, sendo natural e, mesmo assim, instigando o leitor, entregando as respostas em doses homeopáticas. Nesse livro, a carga de mistério é menor do que em A Verdade, dando lugar de destaque para o drama familiar e as consequências dos atos impensados e dos amores avassaladores.

Infos:
Título original: Le livre des Baltimore
Autor: DICKER, Joël
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788580579765
413 páginas

Livro cedido para resenha pela editora
Para comprar: Amazon | Submarino
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2 de setembro de 2017

Wishlist de lançamentos #5

Oi!
Depois de muito tempo sem dar a louca na Amazon, estourar o cartão de crédito no Submarino ou fazer a festa nas livrarias físicas, eu preciso desabafar: tava difícil. E o motivo nem era o fato de eu estar falida e contando as moedas todo mês não - porque pra livro a gente sempre dá um jeito - mas a falta de lançamentos que me interessassem, principalmente dentre os young adults, meu gênero favorito.

Nesse mês, porém, eu posso respirar aliviada. MEU YA TÁ VIVO! Vem boletinho da Amazon. Vem e-mail do Submarino. Pode entrar. Com vocês, os lançamentos que me fizeram ter fé na humanidade novamente.

1. O Problema do Para Sempre - Jennifer L. Armentrout (Galera Record)

Já na infância, Mallory Dodge percebeu que só poderia sobreviver se ficasse calada. Teve que aprender a ficar o mais quieta possível. Aprendeu a passar despercebida. A se esconder. Mas agora, após ter sido adotada por pais amorosos e dedicados, ela precisa enfrentar um novo desafio: sobreviver ao último ano do Ensino Médio numa escola de verdade. O que Mallory não imaginava é que logo no primeiro dia de aula daria de cara com um velho amigo que não via desde criança, quando viviam juntos no abrigo. E começa a notar que não é a única que guarda cicatrizes do passado, além de uma paixão adormecida e inevitável.
Amo histórias que envolvem mistérios e cicatrizes do passado, ainda mais quando têm uma pegada YA, como aparenta ser o caso desse livro. O único problema é que histórias assim dificilmente têm meio termo: ou são incríveis e surpreendentes, ou são uma decepção. Espero se tratar do primeiro caso! Para comprar: Amazon | Submarino.

2. Os 27 crushes de Molly - Becky Albertalli (Intrínseca)


Molly já viveu muitas paixões, mas só dentro de sua cabeça. E foi assim que, aos dezessete anos, a menina acumulou vinte e seis crushes. Embora sua irmã gêmea, Cassie, viva dizendo que ela precisa ser mais corajosa, Molly não consegue suportar a possibilidade de levar um fora. Então age com muito cuidado. Como ela diz, garotas gordas sempre têm que ser cautelosas. Em Os 27 Crushes de Molly, a perspicácia, a delicadeza e o senso de humor de Becky Albertalli nos conquistam mais uma vez, em uma história sobre amizade, amadurecimento e, claro, aquele friozinho na barriga que só um crush pode provocar.
Becky Albertalli é oficialmente a pessoa mais preciosa que habita a Terra. Além de autora de Simon vs. a Agenda Homosapiens (que eu amei e inclusive resenhei aqui), ter um dos autógrafos mais fofos e criativos e ser um baita mulherão, agora ela lança mais um livro cheio de representatividade e com essa capa lindona. Quero. Para comprar: Amazon | Submarino.

3. O ódio que você semeia - Angie Thomas (Galera Record)


Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente. Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Uma história juvenil repleta de choques de realidade. Um livro necessário em tempos tão cruéis e extremos.
Falando em representatividade: quantos livros escritos por autores negros você já leu? Quantos deles foram escritos por autoras mulheres negras? E que falavam sobre racismo? Eu não consigo colocar em palavras o quanto esse livro é importante. Eu nem li, mas ele já está na minha lista de favoritos. Para comprar: Amazon.

4. Confesse - Colleen Hoover (Galera Record)


Auburn Reed perdeu tudo que era importante para ela. Na luta para reconstruir a vida destruída, ela se mantém focada em seus objetivos e não pode cometer nenhum erro. Mas ao entrar num estúdio de arte em Dallas à procura de emprego, Auburn não esperava encontrar o enigmático Owen Gentry, que lhe desperta uma intensa atração. Pela primeira vez, Auburn se vê correndo riscos e deixa o coração falar mais alto, até descobrir que Owen está encobrindo um enorme segredo. A importância do passado do artista ameaça acabar com tudo que Auburn mais ama, e a única maneira de reconstituir sua vida é mantendo Owen afastado.
Colleen Hoover é Colleen Hoover. Parafraseando um outro autor favorito meu, no seu livro mais famoso: eu leria até a lista de compras dessa mulher. E Confesse passa longe de ser tão simples como uma lista de mercado. Das resenhas que li sobre ele, muitas o destacavam como o melhor livro da autora. Preciso. Para comprar: Amazon | Submarino.

15 de agosto de 2017

[Resenha] Boa Noite - Pam Gonçalves

"Ao contrário do que somos educadas a pensar, as outras mulheres não são nossas inimigas, mas sim nossas irmãs. Um time. O exército que precisamos proteger. Se não protegermos e cuidarmos umas das outras, não serão os homens que farão por nós. Juntas somos mais fortes"


Poder ler um livro escrito por uma booktuber, pra mim, já tem um peso diferente: em meio a tantos lançamentos de youtubers com conteúdo duvidoso, ver um livro publicado por alguém que realmente tem a paixão pela literatura correndo nas veias é animador. Se tratando da primeira booktuber que conheci, aquela que de certa forma é responsável por grande parte da lista de livros que li nos últimos três anos e que me inspirou a criar meu próprio canal, posso dizer que Boa Noite foi como um presente.

A história por si só já seria suficiente: Alina acaba de mudar de cidade para iniciar o primeiro ano da faculdade. Além da oportunidade de cursar a graduação em engenharia da computação em uma universidade federal, a garota também vê uma chance de recomeçar como uma pessoa diferente, deixando os rótulos de nerd e CDF para trás e buscando se tornar mais parecida com os novos colegas.

Em meio aos desafios, Alina se depara com o preconceito por frequentar um curso majoritariamente masculino, tentar se encaixar nos padrões dos jovens universitários, a distância e a saudade de casa e dos pais, mas principalmente, a dura realidade do mundo que ainda se mostra machista e preconceituoso.



Como já citei anteriormente, Boa Noite é um presente, e não apenas para mim, mas principalmente para as jovens meninas que estão agora passando por situações parecidas com as de Alina. Situações que eu já vivi, quando iniciei a graduação, e outras que infelizmente já vivenciei apenas por ser mulher.

Pam Gonçalves soube usar seu alcance de influenciadora digital para chamar atenção para causas importantes, como o machismo e o abuso sexual. Em um mercado em que a maioria dos new adults romantiza relacionamentos abusivos e dá destaque aos mocinhos problemáticos, uma história como essa é essencial por destacar o poder da amizade e da união feminina.

Por se tratar do primeiro livro solo da autora, a escrita com certeza ainda tem muitos pontos a serem trabalhados e amadurecidos, o que de nenhuma maneira torna a narrativa menos atrativa ou pobre. Com uma construção de enredo consistente, esse é um detalhe que passa despercebido. Tenho certeza que as próximas obras da Pam serão ainda melhores e estou ansiosa para os próximos lançamentos!


Infos:
Título original: Boa Noite
Autora: GONÇALVES, Pam
Editora: Galera Record
ISBN: 9788501106698
237 páginas


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