[Resenha] As Garotas - Emma Cline

9:39 PM / Ana Letícia Lima

Aquilo fazia parte de ser garota: você se resignava a qualquer resposta que obtivesse. Se ficasse irritada, era uma louca, e se não reagisse, era uma puta. A única coisa que podia fazer era sorrir do canto onde tinha sido encurralada. Participar da piada mesmo que a piada fosse você.


Demorei para escrever minhas impressões sobre esse livro porque nele temos contato com uma história que já ouvimos em algum lugar, mas que é contada sob outro ponto de vista e com eventos que poderiam ter acontecido, mas que nunca saberemos ao certo. As Garotas precisou desse tempo de digestão, e finalmente consigo expressar tudo o que senti.

O livro realmente nos conta uma história conhecida: a de um grupo de garotas que vivem em um rancho praticando pequenos delitos sob o manto misterioso de um homem mais velho e totalmente sedutor, que mantém relações com todas elas. Tudo sob uma atmosfera de liberdade típica dos Estados Unidos dos anos 60. Os pequenos delitos evoluem e, em determinado momento, os moradores daquele rancho acabam envolvidos em assassinatos brutais.

Essa poderia ser a história da seita de Charles Manson e seus seguidores, mas Emma Cline transformou a narrativa de uma forma que o foco não seja essa relação, e sim, a personalidade e o fascínio de cada uma das garotas que se encantaram com a promessa de um mundo livre e libertário naquele rancho.


Evie Boyd é uma dessas adolescentes que cai de paraquedas no grupo. Se antes vivia sua vida pacata em uma cidade pequena da Califórnia tendo uma única amiga com quem contar, o momento crucial é quando, mesmo que à distância, avista as tais garotas. A principal delas é Suzanne. E, diferente do que aconteceu com todas as outras que se juntaram à seita, é ela quem atrai o fascínio de Evie, e não o líder do bando, Russell.

Após uma briga com a mãe, Evie se junta ao grupo e passa a viver no rancho utilizando roupas compartilhadas com as outras meninas, participando das atividades, das festas regadas a drogas ao redor da fogueira e, também, servindo aos caprichos sexuais de Russell. Tudo em nome da liberdade que lhe foi podada pela mãe.

A narrativa é toda em primeira pessoa mesclando o passado e o presente enquanto Evie, já adulta, revisita os momentos em que viveu no rancho. Emma fez um excelente trabalho de construção de cada personagem, principalmente as garotas de Russell. Cada uma tem seu motivo para estar ali, e ao final do livro já nos sentimos tão próximas a cada uma delas, que mesmo as mais cruéis ganham nossa empatia e nosso apoio. 

O ponto crucial que salvou esse livro, na minha opinião, foi Suzanne. A história não é das mais originais - dezenas de livros já foram escritos baseados no caso Tate-LaBianca e na seita de Charles Manson - porém, em As Garotas o foco principal são, realmente, elas. É a forma como Evie só se juntou ao grupo pela admiração que tinha por Suzanne, que por vezes se confundia entre inspiração e amor romântico. Evie não estava ali por Russell. Estava ali por Suzanne.

E a escrita de Emma Cline, tão detalhista e preciosista com cada ponto da personalidade, dos gestos e descrição de cada personagem, realmente nos transporta para a atmosfera de liberdade dos anos 60. É impossível terminar esse livro enxergando até mesmo os membros da Família Manson da mesma forma. De fato, diversas entrevistas, livros e documentários já descreveram cada um deles. Mas qual seria a verdadeira natureza do que os fez se juntar à seita?

Infos:
Título original: The Girls
Autora: CLINE, Emma
Editora: Intrínseca
ISBN:9788551001356
332 páginas 

Livro cedido para resenha pela editora.
Para comprar: Amazon | Submarino
(comprando através dos links do blog, a blogueira que vos fala ganha um dinheirinho pra investir em mais resenhas pra cá) 

[Resenha] Me chame pelo seu nome - André Aciman

11:21 AM / Ana Letícia Lima

"Ulliva, Ulliva, Ulliva... era Oliver me chamando pelo seu nome (...); mas também era eu chamando-o pelo seu nome, esperando que ele me chamasse de volta pelo meu, que eu falaria por ele para mim, e para ele de novo: Elio, Elio, Elio."


Difícil definir minhas emoções após a leitura desse livro com outra palavra que não seja: impactada. Me chame pelo seu nome foi, definitivamente, o livro que mais me fez sentir emoções distintas em toda minha vida de leitora. Isso porque eu já tinha alguns pré-conceitos com relação a ele por conta do filme, que assisti na época da premiação do Oscar e que não me agradou tanto. Ler um livro com a visão do filme, na minha opinião, prejudica bastante a experiência da leitura.

Mas falando diretamente sobre a história: Elio é um garoto de 17 anos que vive na Itália em uma casa bastante aconchegante com seus pais. Em todos os verões, seu pai - que é professor universitário - escolhe um aluno, ex-aluno ou pesquisador para passar os dias na Itália desfrutando das belezas locais, escrevendo artigos, pesquisando... E, em troca, ajudando-o com o que for necessário em suas próprias pesquisas.

Acontece que no verão específico em que essa história acontece, na década de 1980, o visitante da vez é Oliver: um americano de 24 anos, com camisas esvoaçantes, calções de banho que refletem seu humor e um jeito que às vezes passa por esnobe. Elio se encanta perdidamente por ele. Passa tardes e tardes fantasiando com o toque dele, qual seria a textura de sua pele, seu cheiro...

Quando assisti ao filme achei tudo bem mais ou menos. Sim, eu sei, é uma opinião bastante polêmica, mas não me desculpo por isso. Eu entendo que para as pessoas que vivem na pele a descoberta da sexualidade da maneira como o Elio viveu, tanto o filme como o livro têm uma ligação emocional bastante intensa. Já para mim, que não vivi nada disso e que já assisti a filmes bem melhores nos quesitos técnicos e mais emocionantes no quesito do enredo, não fui tão impactada por ele, embora tenha gostado muito da fotografia e da trilha sonora.


Com o livro a experiência foi parecida, ao menos nos primeiros capítulos: por ser narrada pelo próprio Elio, a história era resumida a descrições sobre os pequenos momentos de atenção que recebia de Oliver, a ladainha da rejeição e suas fantasias adolescentes com o rapaz mais velho. Na minha percepção essa parte foi bastante maçante e quase me fez desistir da história. Apesar disso, muita gente vinha me dizendo que o livro era infinitamente melhor e mais poético do que o filme, então insisti.

Posso dizer que valeu a pena, apesar dos mais de 15 dias para chegar à metade do livro. A partir do momento em que o romance de fato se concretiza, sinto que a história finalmente ganhou vida. Não acho que seja nenhum tipo de spoiler dizer que sim, em algum momento Oliver e Elio ficam juntos, até mesmo porque muita divulgação do filme e do livro foi feita usando como base o romance que acontece.

No decorrer da história consegui até mudar um pouco minha opinião a respeito de Oliver que, no começo, eu enxergava como um homem adulto se aproveitando da ingenuidade e do momento de descobertas da vida de Elio. Essa característica continua existindo, na minha opinião, mas também entendo que como personagem, ele ganha muito mais profundidade no livro. O leitor entende os motivos de tudo que acontece e também as reações do Elio.

Por fim, gostei da narrativa do livro e da escrita poética do autor. Em muitos momentos ele utiliza de metáforas que podem confundir o leitor a respeito do que se passa - se faz parte da imaginação de Elio ou se é real - mas isso não prejudica a leitura de forma alguma. Recomendo Me chame pelo seu nome para quem gosta de personagens com profundidade e histórias bastante descritivas. 

Infos:
Título original: Call me by your name
Autor: ACIMAN, André
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788551002735
287 páginas

Livro cedido para resenha pela editora
Para comprar: Amazon 
(comprando através dos links do blog, a blogueira que vos fala ganha um dinheirinho pra investir em mais resenhas pra cá)

Literatura Young Adult é literatura de verdade?

8:26 PM / Ana Letícia Lima

Na última semana o nicho literário da internet se viu frente a diversas polêmicas envolvendo o que seria ou não "literatura de verdade". Tudo começou com um e-mail TAG Experiências Literárias divulgando suas duas modalidades de caixa de assinaturas - uma chamada "Inéditos" e outra "Curadoria". Acontece que tudo ficou muito nebuloso sobre o que a marca realmente estava querendo transmitir com aquele e-mail.

O infográfico anexado basicamente reforçava diversos estereótipos que eu, ingênua, acreditava que já não existiam em 2018: a ideia de que livros best-sellers são fracos, que alta literatura é difícil e, talvez a que mais tenha me impactado e gerado discussões e até o posicionamento de outros booktubers e editoras, a ideia de que literatura jovem não exige um pensar mais profundo, não debate temas importantes e seria puro entretenimento. 



Enfim, sobre a polêmica com a TAG, fiz esse vídeo acima destrinchando todo o e-mail e porquê cada ponto dele foi problemático, com base na minha opinião e nas discussões e debates que tivemos principalmente no twitter sobre isso. Importante ressaltar mais uma vez que tudo o que disse foi com base na minha visão como profissional de comunicação e leitora, e não especialista em literatura. Por isso, deixei na descrição do vídeo algumas threads e textos que considero importantes sobre pessoas que realmente entendem desse lado.

A questão é que dentre todos os debates que surgiram por conta desse e-mail, o mais forte diz respeito ao fato da literatura Young Adult ser ou não considerada... literatura de verdade. Tivemos até tweets de estudantes de letras citando o que torna um texto literatura e apontando que esse tipo de livro não tinha esses pontos básicos. Quando, na verdade, o autor do tweet nem havia se dado ao trabalho de ler um dos livros para fazer essa constatação.

Não é segredo pra ninguém que meu tipo favorito de livro é o que tem personagens jovens e seus dilemas. Não é a toa que John Green é meu autor favorito. Por isso, entrei na discussão sim e defendi com unhas e dentes, até porque, se analisarmos os últimos livros jovens lançados, todos tratam de temáticas importantíssimas: homofobia, racismo, transtornos mentais, gordofobia, machismo, abuso sexual. E receber um título de alta literatura ou não, para mim, o mais importante é esse tipo de discussão, e principalmente no universo do jovem. Não dá pra confiar que esses assuntos serão discutidos nas escolas ou no ambiente familiar, e unir entretenimento com responsabilidade social é muito importante, talvez até mais do que obrigar um adolescente a ler Dom Casmurro e ganhar ranço dos clássicos nacionais.



Ontem (19/04) algumas editoras aderiram à hashtag #YAéLiteratura. Muita gente compartilhando histórias, conhecimento e, principalmente, indicando livros e autores. Contribuí com algumas indicações, mas principalmente com a minha história.

Já escrevi diversas vezes aqui sobre minha relação com os livros do John Green, mas nunca fui tão direta quando no meu tweet de ontem. Postei essa foto, dessa última página de Tartarugas até lá embaixo e contei sobre o momento em que li esse livro. Foram poucas palavras. "No ano passado eu tinha certeza que acabaria me matando. A última página de um livro do John Green me salvou". E foi essa foto. E ela me salvou mesmo

Assim como conheço outras dezenas de pessoas que têm histórias fortes ligadas à literatura jovem, assim como elas são o meu refúgio e o de tantos outros leitores. É no mínimo desrespeitoso tratar esses livros como menos que outros. Eles podem não ter uma escrita rebuscada, metáforas mil ou metalinguagem. Mas o papel da literatura é realmente só ser um monte de palavras escritas de uma forma maneira? Eu acredito que não.

Eu acredito que o papel da literatura também pode ser entreter, gerar debate, defender uma causa, apontar um problema social, ajudar na construção do caráter e da personalidade, abrir os nossos olhos para mundos que não conhecemos - e aqui, eu não estou falando sobre o mundo de J. K. Rowling ou Tolkien. Eu falo sobre mundos que estão dentro da nossa própria cidade, sobre a periferia e a violência policial contra negros, como no caso de O ódio que você semeia. Das instituições psiquiátricas pelo olhar de Sylvia Plath em A Redoma de Vidro (que, sim, pode ser considerado literatura YA) e Ned Vizzini em Uma história meio que engraçada. O mundo de quem vive violência doméstica e relacionamentos abusivos em É assim que acaba.

Literatura jovem é literatura e é importante. Talvez seja a hora de o mundo se acostumar com isso.